Biotecnologia e fundamentalismo

Em Roma, no centro da praça do ?Campo dei Fiori?, uma estátua enegrecida denuncia a intolerância dos fundamentalismos contra o progresso. Nela um texto magistral: ?A Bruno, il Secolo da Lui Divinato, Qui, Dove il Rogo Arse? (A Bruno, o século por ele profetizado, aqui, onde a fogueira ardeu). Reverencia Giordano Bruno, dominicano, doutor em teologia, que acusado de heresia foi perseguido e preso em Veneza pelo Santo Ofício e condenado pelo Tribunal da Inquisição em Roma. Recusando retratar-se de suas idéias progressistas foi queimado vivo, em 1600, no mesmo local onde está erigida a sua estátua. Seu crime: defendia que a terra não era o centro do universo, sendo esse homogêneo composto de quatro elementos representados pela água, terra, fogo e ar.

O obscurantismo da fé intolerante no passado vitimou milhares de homens e mulheres que ousaram pensar de maneira inovadora. A ciência, a lógica e a razão eram sinônimos de subversão. Em Toledo, na Espanha, qualquer visitante pode percorrer as salas e os andares do Museu da Tortura. Nele, um cenário de horrores e perversidades sádicas que agride a consciência e conspurca a alma daqueles que conseguem percorrer, em ato de coragem, todas as instalações daquele braço do Tribunal da Inquisição em terras espanholas. Hoje, sabe-se que ciência e fé não são incompatíveis.

A lembrança desses atos de intolerância do passado aflorou recentemente ao se constatar, no presente, um debate emocional e equivocado que vem sendo travado no Brasil. Felizmente os tempos são outros e não existe a possibilidade de se queimar em fogueiras ou levar às salas de tortura quem trabalha focado nos fundamentos científicos. É preciso que se entenda e se reconheça que a biotecnologia é ciência. O seu objetivo é melhorar o padrão existencial do ser humano. O debate que precisa e deve ser travado não pode ser emocionalizado e ideologizado, com as mentalidades autoritárias baixando verdadeiros ?index proibitorum? contra a biotecnologia.

Ela veio para ficar, integrando a base evolucionista que não pode ser revogada. O debate científico entre correntes defensoras de diferentes pontos de vista é muito importante. Deve ser travado no âmbito geral da biodiversidade, principalmente sobre a diversidade biológica. Especificamente em relação ao Brasil, dotado de gigantesca biodiversidade que desperta cobiça e interesse. Sobremaneira na busca de moléculas com potencial farmacêutico e variadas aplicações na área industrial. A ação governamental tendo à frente o Ministério da Ciência e Tecnologia deve tratar com prioridade máxima a repartição da biodiversidade que possui com os interesses dos países detentores de tecnologia industrial. Não pode ser contemplativo ante os representantes das grandes corporações.

Na área da biotecnologia alimentar é onde se localiza ruidosa polêmica. De um lado, os que condenam o seu desenvolvimento na agricultura, assegurando a existência de lacunas com relação aos organismos geneticamente modificados. Do outro, os que defendem que o cruzamento de espécies acontece há milhares de anos no mundo selvagem. Asseguram que a biotecnologia melhorou muitas espécies e garantem que a vitamina C que enriquece os alimentos é produto da biotecnologia.

No Brasil, a Embrapa, indiscutivelmente um centro de pesquisa agropecuária com nível de excelência e respeito internacional, vem, há anos, desenvolvendo avançadas pesquisas na área da biotecnologia. É fundamental que amplie essas pesquisas para dotar o País de uma tecnologia de alimentos inovadora. Impedindo que no futuro os produtores brasileiros fiquem reféns do pagamento de ?royalties? aos grandes grupos internacionais detentores de específicas patentes.

Demonstra a Embrapa que não se curva ao jogo semântico de um obscurantismo delirante. O debate democrático sobre os avanços da biotecnologia é saudável. Já as posições fundamentalistas de governantes despreparados são uma agressão à ciência. Foi dessa intolerância que Giordano Bruno foi vítima.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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