Nem só das repetitivas declarações histriônicas do presidente Hugo Chávez se alimentou o “socialismo do século XXI”, a emblemática figura de linguagem até aqui arvorada pelo autoproclamado herdeiro dos ideais de integração sonhados por Simon Bolívar para o território conhecido desde então como a América espanhola. Enquanto o presidente fazia suas cansativas arengas, dentro e fora do país, um grupo selecionado de diligentes assessores foi encarregado da importante tarefa de organizar uma biblioteca básica, que brevemente estará disponível nas seções ideológicas de todas as bibliotecas públicas da Venezuela, a fim de oferecer à população o respaldo intelectual para a melhor compreensão do pensamento político que Chávez considera o mais conveniente para seus concidadãos.

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A informação se espalhou rapidamente pelo mundo, transmitida por correspondentes internacionais sediados em Caracas, como foi o caso de Maye Primera, do diário espanhol El País, na edição da última quinta-feira. Ela relatou o lançamento da revolução cultural do presidente Hugo Chávez, numa paráfrase realista do evento de natureza político-cultural ocorrido na China governada por Mao Tse Tung. A denominação escolhida para batizar o esforço do governo venezuelano, não poderia ser mais representativa: Plano Revolucionário de Leitura (PRL) que, curiosamente, aparece como um complemento natural do ambicioso programa de alfabetização posto em prática em todas as regiões do país.

Segundo a matéria escrita por Maye Primera, o projeto levou cinco anos para chegar ao nível preconizado pelo presidente Hugo Chávez ao Ministério da Cultura, considerando a necessidade de “reafirmar os valores condizentes à consolidação do homem e da mulher novos, como base para a construção da pátria socialista”. Nesse particular, anotou Maye, foram notórios os esforços para “desmontar o imaginário do capitalismo” e “recontextualizar a história”.

No discurso proferido na sede da Galeria de Arte Nacional diante de um auditório formado por meninos e meninas trajados com as indefectíveis camisetas vermelhas e bradando lemas socialistas, Chávez doutrinou que a leitura para a formação da consciência política passa agora a constituir dever diário do povo venezuelano: “Temos de injetar na contrarrevolução, todos os dias, uma dose de liberação mediante a leitura”. O PRL foi desenhado para gerar “um ato coletivo orientado a fomentar o socialismo”, frisou. Percebe-se que a intenção de lançar o projeto perante uma audiência composta por crianças em idade escolar, decerto terá sido uma escolha fortemente determinada pela lógica de dispor de terreno apropriado para as manobras futuras.

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Para tanto, as bibliotecas públicas do referido país já receberam exemplares do livro O socialismo venezuelano e o partido que o impulsionará, tratado concebido pelas luzes do ministro das Finanças, Alí Rodriguez, com a colaboração do vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela, Alberto Müller Rojas. Também fazem parte do acervo magníficas jóias do realismo socialista segundo o modelo caribenho, tais como Por que sou chavista?, do ex-ministro do Poder Popular para a Cultura, Farruco Sesto, e Ideias cristãs e outros aportes ao debate socialista, que reúne excertos dos discursos de Hugo Chávez em torno da suposta condição socialista de Jesus Cristo.

Não poderiam ser descartados dessa coleção os volumes escritos para perpetuar o pensamento do Che, bem como o Manifesto comunista, que logo estarão ao alcance de uma multidão de jejunos leitores venezuelanos. Edgar Paez, um dos responsáveis pelo Escritório Nacional do Plano Revolucionário de Leitura, afirmou com todas as letras que o projeto é ideológico, da mesma forma que inocentes receitas de cozinha também transportam clara mensagem ideológica. Diz ele que “crianças estão sendo educadas por livros que identificam como descobrimento as invasões promovidas pelo império espanhol, além dos eufemismos que tratam de atenuar o genocídio dos povos primitivos”. Goebells fez escola.

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