Bem sucedido plano de mídia de Cho Seung-hui

Brigadas terroristas, numa interpretação distorcida do Islã, prometem àqueles que morrem como mártires (nesse caso um eufemismo para terroristas suicidas) que viverão num paraíso à beira de um rio de leite e mel, onde haverá uma mesa farta e 72 virgens estarão à espera de sua virilidade. É a promessa paradisíaca de uma autoridade divina. No mundo ocidental, moldado pela recusa dos argumentos de autoridade em prol daqueles validados pela razão, o equivalente de paraíso, onde há fartura, mel e mulheres lindas está na fama. É o paraíso almejado no mundo midiático. Ser é ser reconhecido. Numa das propagandas de apresentação dos integrantes do Big Brother Brasil 7, um dos rapazes disse que iria participar do programa porque ?queria ser alguém?. É o olhar do outro que o faz alguém? É o olhar de milhões de outros, avalizado pela mídia, que o fará sentir-se alguém. Fora da visibilidade absoluta, só há nulidades, há condenados à penumbra da platéia das divindades cujo paraíso é um palco iluminado por holofotes. A mídia diviniza, mas ao divinizar, desumaniza. Com promessas deslocadas, como as daqueles que distorcem o Islã e transformam crentes em assassinos, ela reduz homens a produtos. Para chegar a esse paraíso, é preciso deixar de ser humano, assim, o sujeito se mercantiliza, oferece-se como mercadoria num ponto de venda nobre e disputado.

Não é muito diferente no jornalismo. Deveria. Claro, não se pode pensar a imprensa sob as mesmas premissas da indústria da mídia. Nosso trabalho é relatar os fatos, disseminar idéias, de modo independente, plural e equilibrado. O da mídia é o entretenimento, é o sonho. No jornalismo está a vida, estão os seres humanos. Não é sempre assim. Monte-se um espetáculo dentro dos padrões do mercado e tem-se uma notícia alçada às capas de jornais, revistas, websites, às escaladas dos telejornais. Foi o que fez Cho Seung-hui, o estudante sul-coreano de 23 anos que matou 32 pessoas e depois cometeu suicídio, no Instituto Politécnico da Virgínia. Não bastasse a barbárie cometida, o atirador montou um plano para disseminar as idéias desconexas de sua atormentada mente. Ao enviar para a TV NBC, gigante mundial de entretenimento e jornalismo, mais de 43 fotos, 27 clipes e um texto, Cho mostrou ter elaborado um plano de mídia e, pelo que se viu nos jornais e tevês no dia 19 de abril, fielmente cumprido por parte da imprensa mundial.

A atrocidade cometida por Cho por si já era notícia. Mas ele quis desviar a atenção do crime para o criminoso. Conseguiu. Fotos suas portando armas, em poses diversas qual ator de filme policial, trechos de uma carta, depoimentos em vídeo suplantaram, com raras exceções, a cobertura da homenagem às vítimas, os relatos dos sobreviventes. Foi Cho quem ganhou os holofotes da imprensa. De maneira brilhante, soube potencializar o crime que cometeu. Redigiu, protagonizou e divulgou seu espetáculo bizarro. Opaca foi a imprensa que não se importou em ser a ponta final do plano de um assassino. Fez de conta que não era com ela e levou o criminoso aonde ele quis. E Cho cuidou que todas as mídias fossem atendidas. Inegável que a elaboração do pacote de divulgação e da frieza do assassino na arquitetura de seu plano também é notícia. Espantosa foi a dimensão dada às imagens nas capas dos jornais, nos websites e a repetição exaustiva pelos canais de televisão. Em dezenas de diários, a foto principal da primeira página foi a de Cho empunhando duas armas. De grandes jornais brasileiros ao The New York Times, a imagem de fato emblemática ocupou com destaque a primeira página. Outros foram mais longe, publicaram quatro, cinco fotos, além de trechos da carta do arquivo do matador. Poucos trataram a notícia sem se render ao jogo de Cho, que de certa forma fez cúmplices aqueles que seguiram seu bem montado plano de construir o inferno e chegar ao paraíso do mundo midiático.

Se você quiser ver imagens das capas dos jornais de alguns países, acesse http://claudiabelfort.spaces.live.com

Claudia Belfort é jornalista e mestranda em Filosofia pela PUCPR. claudia.belfort@uol.com.br

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