Beleza brasileira

O brasileiro quer ser, antes de tudo, magro. Sem abdicar dos chopes, macarronadas, churrascos e feijoadas, persegue, obstinado, a silhueta do atleta e a cintura da Giselle Bündchen. É, porém, um povo de gordinhos e obesos, inclusive as crianças e os jovens, porque se enreda no paradoxo de comer muito fazendo dieta (ou apesar dela), quando vontade de comer e necessidade de emagrecer não resistem a ele.

Que fazer? Se a vida alimentar se complica com dietas extremadas, sem controle médico, ou com a crença de que não se dribla a fome, o resultado é sempre o pior. As recentes mortes das modelos Ana Carolina Reston e Carla Sobrado Cassalle, ambas com 21 anos e vítimas de anorexia e bulimia, traz certas reflexões sobre essa banalidade da vida moderna. Carolina morreu com 13 quilos abaixo do peso ideal, enquanto Carla, de 1,70 metro, chegou a pesar 38 quilos, teve várias internações e sempre recusou tratamento. Magreza não deve ser uma obrigação social nem credencial para emprego – não deve ser procurada a qualquer preço, embora o excesso de gordura também seja nocivo à saúde.

Em alguns países desenvolvidos (exceção dos EUA, onde a obesidade é um grande problema), nos quais se cuida bem da saúde do povo e a taxa de informalidade é quase desprezível, a psicologia coletiva rejeita regimes dietéticos e moderadores de apetite.

Ao contrário de países organizados, como Noruega, Japão, Finlândia e outros da lista de Competitividade Global da Conferência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento, aqui se vive a contradição pobreza-abundância. Sem conseguir resolvê-la, remediados e ricos morrem de fome e de doenças causadas por dietas. Os salários aumentam, o consumo supera a produção, a comida pode ser comprada até a crédito nos supermercados.

Seria essa uma das razões pelas quais se come demais em casa, nas ruas, nas praias, etc., e depois se faz ginástica e dietas absurdas, para se perder peso ou não engordar? O que dizer das modelos que nada comem para desfilarem, automatizadas, ossos à mostra, e até de crianças de 6 a 10 anos, às quais também se impõe a ?imagem perfeita??

O que precisaremos fazer para lhes devolver à vida, livrando-as da influência dos símbolos que, idealizados pelas sugestões inebriantes da mídia nacional e estrangeira, são tão caros à sociedade moderna? Abolir a oferta de comida, reduzir o número de fast foods, restringir o consumo de alimentos com gordura, etc., seriam idéias inconstitucionais e esdrúxulas.

Mas por que anorexia, bulimia e outras doenças, basicamente femininas, que afetam, sobretudo, modelos de 13 a 20 anos e que as levam a se isolarem da convivência social, têm que entrar nas passarelas da moda? Afinal, ninguém pode aplaudir um desfile sabendo que uma em cada quatro modelos desenvolve um tipo de comportamento abulímico. Isto é, come para, em seguida, induzir o vômito, ou toma laxante e diurético para eliminar o que comeu, como mostrou pesquisa do psicólogo Marco Antônio Tommaso, especialista em transtornos alimentares.

Devemos criar um manequim tamanho zero, como sugeriu aos seus costureiros a ex-Spice Girls Victoria, mulher do futebolista David Beckham, do Real Madrid, para que ela pudesse entrar nos vestidos?

Pode ser que um dia cheguemos lá, até como exercício de imaginação, mas é preciso se fazer algo para impedir a via-crúcis de milhões de pessoas. Não apenas das new faces e top models, que se impõem à magreza para encontrar a imagem perfeita, como das milhares de pessoas que se impingem (e aos filhos) a obrigação de emagrecer.

A novela Páginas de Vida, de Manoel Carlos, tem na personagem da atriz Deborah Evelyn – a mãe que queria ver a filha bailarina clássica – um exemplo emblemático desse comportamento obsessivo. Não seria preciso tanto se soubesse que Giselle Bündchen não rejeita um hambúrger quando tem fome.

Para que lugar a sociedade brasileira, movida pelos padrões internacionais, estaria levando nossos jovens e crianças ao impingir a eles obrigação de pararem de comer em função de um padrão estético que poderá estar logo ultrapassado? Em qualquer atividade, inclusive na moda, gente não pode ser vista como ?esqueletos andantes?, conforme definiu a espanhola Leonor Pérez Pita, diretora do evento Passarelle Cibeles. ?Tendo um 1,76m e apenas 40 quilos?, acrescentou, ?é claro que essa menina não era saudável e precisava ser cuidada e hospitalizada.?

A atriz e modelo Fernanda Lima é ainda mais enfática ao declarar que ?modelo não come? e que ?isso não é uma lenda?, pois ?são poucas as que comem de modo minimamente saudável? – ?quando muito comem uma maçã?, diz. Cabe, então, a nossos governantes, investigarem por que isso ocorre e estabelecer regras que obriguem as agências a humanizar a profissão e seus padrões de beleza brasileira.

Miguel Jorge, jornalista, é vice-presidente de Recursos Humanos e Assuntos Jurídicos e Corporativos do Santander Banespa.

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