Não é novidade para ninguém a divergência entre o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, e o ex-chefe da Casa Civil e ex-deputado federal José Dirceu, que até ser apeado do cargo ainda no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva em face do estrago arrasador causado pelo escândalo do mensalão, não conhecia ninguém à altura (talvez nem o próprio presidente da República), de questionar as determinações que espargia como decalque do novelesco “sinhozinho Malta” da administração federal e, com efeito, do Partido dos Trabalhadores (PT).

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As asas de Dirceu foram finalmente atoradas no episódio da perda do mandato na Câmara dos Deputados, por absoluto menosprezo ao cânone do decoro parlamentar, tendo em vista o acúmulo de indícios que o reputaram como mentor intelectual do esquema operado pelo tabaréu goiano Delúbio Soares, guindado ao posto de tesoureiro nacional do PT, com o devido respaldo técnico do publicitário Marcos Valério de Souza, o “carequinha” de Belo Horizonte, segundo a impagável definição do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).

Aliás, lembremos que o próprio Roberto Jefferson havia dirigido o ventilador sobre o prato de farofa ao denunciar a existência do mensalão, cujos réus estão sendo julgados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), recomendou a Dirceu o abandono imediato do cargo de chefe da Casa Civil, sob pena de respingar lodo sobre “um homem honrado”, nesse caso, o presidente Lula. No dia seguinte, Dirceu anunciou o retorno à Câmara com o intuito de provar a inocência, mas acabou sofrendo um novo revés mediante a cassação do mandato e suspensão dos direitos políticos por dez anos.

Seguiu-se uma disputa feroz pelo comando da executiva nacional do PT, arvorando-se o grupo dos herdeiros da ortodoxia petista maculada pelas estripulias financeiras arquitetadas pelo trio Dirceu-Genoino-Delúbio, como uma espécie de taumaturgo capaz de juntar os cacos deixados pelo fragoroso desmoronamento do grêmio autoproclamado pregoeiro da ética e da transparência na política. Nesse contexto assumiu o papel de protagonista o ministro Tarso Genro, à frente dos operadores do petismo no Rio Grande do Sul, a bem dizer a célula petista mais politizada do País.

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A batalha intestina foi violenta, a ponto da desmoralizada tendência denominada Campo Majoritário, comandada por José Dirceu, à qual Lula pertencia e continua a pertencer, concluir pela conveniência oportunista de mudar de nome, embora continuasse de topete erguido ao optar pelo gongórico slogan “Construindo um novo Brasil”. No round final, o deputado paulista Ricardo Berzoini acabou reconduzido à presidência da executiva nacional.

O enfrentamento ideológico entre Dirceu e Tarso, personagens que não hesitam entregar os anéis e os dedos, conquanto possam fincar pé nos lugares mais visíveis no picadeiro, continuou aceso mesmo que os lances agudos tenham permanecido à sombra dos reposteiros. Contudo, está na véspera de nova efervescência por causa dos entendimentos preliminares com vistas às eleições ao governo do Rio Grande do Sul, onde o atual ministro da Justiça é um dos três pré-candidatos declarados do partido. Como se sabe, José Dirceu anda percorrendo o País com a missão de convencer as secções estaduais do PT a fazer alianças preferenciais com o PMDB, algo que os fundamentalistas do petismo gaúcho consideram tão estapafúrdio quanto botar açúcar na cuia do chimarrão.

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O PT dos pampas anunciou a pretensão de definir a indicação do candidato ao Palácio do Piratini já no mês julho, antes do congresso nacional do partido marcado para fevereiro do próximo ano, momento em que segundo Berzoini o partido tenciona solidificar o conjunto de alianças em torno da candidatura da ministra Dilma Rousseff à presidência da República. Isso inclui o apoio petista ao candidato do PMDB ao governo estadual. O ministro Tarso Genro, no entanto, afirmou que o palpite é infeliz, acentuando o “fato de termos um partido programático, politizado e ético”. Por fora, bela viola.