Na sua origem está a ação dolosa de políticos que só têm um único compromisso: obter a qualquer custo benefícios pessoais, incorporando patrimônio pela malversação e assalto aos recursos públicos. A Política aristotélica com P maiúsculo é substituída e transforma-se em rendoso negócio. A sua desmoralização torna-se lugar-comum. A fisiologia, o tráfico de influência, a esperteza passam a ser parte integrante da grande família dos corruptos.
Na vida pública de um Estado democrático o que deveria prevalecer e predominar seriam os ?políticos republicanos?, vocacionados para servir ao interesse público. E não os ?políticos de negócios?, que visam compensações econômicas e financeiras que lhes asseguram confortáveis reeleições com indiscutível aprovação popular. São os despachantes de luxo, festejados nas suas comunidades. São os políticos de resultados. Enquanto aqueles dotados de princípios republicanos são massacrados pelo uso do poder econômico e têm o seu número reduzido a cada eleição. Na sua origem está um sistema político invertebrado, onde os partidos são apenas cartórios eleitorais para registro de candidaturas. Sem fidelidade partidária, inexiste compromisso de fé doutrinária. O troca-troca de legendas é absorvido como fato normal. Aí está uma das premissas para os infindáveis casos de corrupção que invadem as manchetes jornalísticas.
Os tentáculos da corrupção penetram com a força de motoniveladora em todas as instâncias da administração pública. Mesmo aqueles que se consideravam portadores, por direito quase ?divino?, de um patrimônio ético, são atropelados. O golpe avassalador agora desferido contra o governo Lula e o seu partido se inscreve nessa triste realidade. As suas bandeiras históricas foram atingidas de modo definitivo, fruto do conspurcamento por alianças heterodoxas. Constata-se que muitos dos aliados políticos de travessia em busca da governabilidade constituíam uma nau de corsários prontos para o saque do patrimônio público.
É terrível saber com assento na Câmara dos Deputados um ?exército de mercenários? recebedor de propina mensal para aprovar projetos do governo. É preciso ir fundo. Cassando esses energúmenos do convívio democrático, com pena adicional de longa reclusão. Punindo a todos os envolvidos, do Executivo ao Legislativo. Por ser fato grave, com reflexos institucionais gravíssimos.
O Congresso Nacional, diante dos acontecimentos gerados pelo ?mensalão? na Câmara dos Deputados, tem agora a oportunidade oferecida pela CPI Mista de passar a limpo esses tristes e lamentáveis fatos. As investigações, ao se aprofundarem, encontrarão o perigoso câncer da corrupção penetrado em artérias fundamentais da administração federal. A sociedade perplexa a tudo assiste com agonia e sede de justiça. Nessa hora é oportuno dizer que ela não é apenas espectadora, é participante dessa tragédia. Todos os envolvidos são detentores de mandatos e foram votados nas suas diversas regiões. Receberam o voto popular.
Torna-se oportuno citar o professor Fernando Lattman-Weltman, da PUC-Rio e sociólogo da FGV-Rio: ?Os políticos continuam sendo as ovelhas negras de uma sociedade que segue tão ou mais mafiosa e inescrupulosa do que a sua classe política. Afinal, quem elege os Severinos e os Jeffersons? Quem financia as suas campanhas? Quem conta com eles para alavancar os seus interesses particulares às custas do erário e do interesse público? De onde eles vieram? Da Lua??.
É urgente que se faça consciente reflexão sobre essas indagações. A culpabilidade da sociedade em episódios como os aqui citados não pode ser desprezada. O terreno fértil da esperteza, degrau inicial da corrupção política, encontra excelente fertilizante nos momentos eleitorais.
As bancadas de aluguel nascem desse contubérnio, onde o marketing da mentira e da venda de ilusões e promessas irrealizáveis joga o País em crises de credibilidade recorrentes.
As palavras seguintes são de um político autenticamente republicano, o senador Cristovam Buarque: ?Criamos uma classe política que age não com base nos seus sonhos e propostas, mas com base em pesquisa de opinião pública. Os políticos dão prioridade ao marketing e não à verdade. Esse é o grande problema. E isso está gerando uma crise de credibilidade séria?.
Ex-governador de Brasília, educador de respeito internacional, Cristovam Buarque foi ministro da Educação, no primeiro ano do atual governo. Demitido por telefone, quando se encontrava em Lisboa, em missão oficial. Um ato de brutalidade incomum. Gentileza e relação educada quem recebia eram os membros da bancada de aluguel.
Hélio Duque é ex-deputado federal.