O lendário major Curió, codinome do militar Sebastião Rodrigues de Moura, que teve atuação destacada como coordenador da ação das Forças Armadas durante a Operação de Inteligência Sucuri para combater a Guerrilha de Araguaia (1972-1975), depois de muitos anos de silêncio voltou à cena de maneira espetacular e abriu o arquivo pessoal mantido em segredo por mais de trinta anos.
O feito foi conseguido pelo repórter Leonencio Nossa, do jornal O Estado de S. Paulo, que publicou reportagem exclusiva de duas páginas na edição desse domingo na qual a declaração mais polêmica, sem a menor dúvida, é que pelas anotações de Curió o Exército executou 41 guerrilheiros, sendo que até agora somente admitia a eliminação em combate de 25 integrantes do movimento insurrecional organizado pelo PCdoB, nas selvas do Araguaia.
O agravante é que o antigo militar reconheceu que a maioria dessas eliminações agora reveladas, foi feita quando os guerrilheiros já estavam desarmados e não mais representavam risco para a repressão. A ideia transmitida pelas informações de Curió é que as eliminações ocorreram como uma espécie de queima de arquivo.
Mesmo depois de tantos anos, as declarações do polêmico militar, mais tarde eleito para a Câmara dos Deputados com o apoio dos garimpeiros que infestaram aquela região da Amazônia e prefeito municipal de Xambioá (Tocantins), o polo mais importante do teatro de operações, tornam-se o libelo mais impactante até hoje infligido ao comando das Forças Armadas, porque não dizer, ao próprio Ministério da Defesa, que a partir desse momento estão obrigados a abrir os arquivos da Guerrilha do Araguaia, a fim de que a sociedade, apesar das feridas reabertas, possa virar de uma vez por todas essa página dolorosa de sua história recente.
Caso não haja nenhum valor moral ou histórico a ser extraído da abertura dos arquivos militares sobre o confronto sangrento com os guerrilheiros e habitantes de uma das regiões mais atrasadas do Brasil naqueles idos, vale registrar a reparação possível da inenarrável angústia vivida por muitas famílias que ao longo de mais de três décadas nunca receberam uma reles informação sobre o paradeiro de seus entes queridos. Trata-se, a rigor, de estrita exigência da instituição universal dos direitos humanos, sobre cuja validade não cabe a menor cavilação nutrida em arrazoados de natureza corporativa ou institucional. A sociedade está madura para o conhecimento da verdade em toda a sua extensão.
Nesse sentido, a decisão assumida pelo major Curió é de extraordinária importância, sobretudo pelo fato de ter sido ele exatamente o integrante das Forças Armadas, no comando de uma operação bem-sucedida visando convencer os habitantes locais a “entregar” o esconderijo dos guerrilheiros, que mais estragos causou no movimento chefiado pelo líder comunista Maurício Grabois. A reportagem salienta o respeito que Curió sempre teve para com o inimigo: “Queria ser militar porque queria defender a pátria, achava bonito. Alguns guerrilheiros tinham os mesmos ideais que nós. Mas nossos caminhos eram diferentes. Eu achava que o meu caminho era o correto. Eles achavam que o deles era correto. Não eram bandidos, eram jovens idealistas”.
No entanto, os principais chefes militares da época se deixaram embair por uma motivação radicalmente oposta, ao enquadrar como inimigos mortais da ordem estabelecida um punhado de jovens de hábitos essencialmente urbanos, que mal avaliavam os riscos da sobrevivência nas selvas e jamais haviam empunhado uma arma de fogo. O ignominioso balanço retratado por um dos mais renomados atores daquela tragédia é que muitos jovens foram chacinados sem oferecer resistência, alguns deles com a cabeça seccionada do corpo para servir de “prova” da eliminação física.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apesar do esforço de alguns integrantes, sempre tratou essa questão com assombrosa má vontade, foi literalmente levado às cordas. A sociedade exige que não fique pedra sobre pedra.