Baixo calão

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), a propósito, verbalizando um sentimento generalizado entre pessoas de discernimento e bom senso, sugeriu ao colega José Sarney (PMDB-AP), presidente da instituição, que peça licença do cargo por dois meses a fim de conceder maior liberdade de movimentação às comissões encarregadas de investigar a fundo as origens e causas do escândalo que há quatro meses impede o funcionamento normal da instituição.

A Casa enfrenta uma das piores crises éticas e morais dos últimos tempos, sendo alvejada quase diariamente por novas e chocantes revelações de debochada licenciosidade com o dinheiro dos contribuintes, materializada pela contratação e aumento ilegal dos vencimentos por meio dos atos secretos, de parentes e apadrinhados dos próprios senadores ou integrantes da cúpula administrativa, como dos diretores já exonerados, Agaciel Maia e João Carlos Zoghbi.

Como se sabe, Agaciel Maia foi nomeado para a função de diretor-geral do Senado no primeiro mandato do senador José Sarney na presidência da mesa diretora e, confirmado no cargo, no início do atual período legislativo. A imprensa já contabilizou 650 atos secretos autorizados por Agaciel Maia e João Carlos Zohgbi, que respondia pela diretoria de Recursos Humanos, num autêntico festival de favorecimentos a parentes e amigos, além das benesses financeiras que os respectivos funcionários amealharam para si mesmos e seus protegidos.

Além de ter parentes e contraparentes regiamente pendurados na folha de pagamento da instituição, o senador José Sarney recebia R$ 3,8 mil mensais de auxílio-moradia, apesar de possuir imóvel particular no Distrito Federal e dispor de residência oficial na qualidade de presidente do Senado. Durante alguns anos, por interveniência de Sarney, o Senado concedeu sem despesas um apartamento funcional ao ex-senador Belo Parga, um amigo de longa data e cordato integrante de sua bancada pessoal. A respeito da filha dileta e herdeira presuntiva do feudo maranhense, ao qual voltou como governadora em face da mais que duvidosa cassação do mandato do ex-governador Jackson Lago (PDT), soube-se que a mesma goza o privilégio de contar em sua residência com os serviços de um mordomo, cujo salário de R$ 12 mil é assumido pelo Senado da República.

E, para arrematar a incrível voracidade com que os pais da pátria se lançam sobre o carnudo regabofe custeado pelos cofres públicos, os jornais informaram ontem que o último exemplar do cartorialismo político brasileiro, convencido da inigualável grandeza de sua trajetória como poeta, romancista, homem de Estado e pai dos pobres, mesmo que o Maranhão só consiga superar o Piauí nos paupérrimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), alocou dois funcionários também contratados pelo Senado para cuidar do mausoléu que mandou erguer em São Luís para a preservação de sua memória!

Há alguns dias, Sarney foi constrangido a descer à planície e se explicar aos colegas da própria tribuna, afirmando num discurso patético que nada sabia sobre os atos secretos noticiados pela imprensa. Pois bem. Agora se tornou pública uma lista de 35 senadores atuais e mais 22 ex-parlamentares que desde 1995 chancelavam a utilização do expediente inescrupuloso em benefício próprio. Além de Sarney e Roseana, dentre outros constam da lista Renan Calheiros, Fernando Collor, Demóstenes Torres, Marcelo Crivella, Edison Lobão, Hélio Costa, Pedro Simon, Heráclito Fortes, Romeu Tuma e mesmo Cristovam Buarque, que agora reclama o afastamento de Sarney. Felizmente para os paranaenses nenhum de seus representantes no Senado consta da relação dos que nomearam parentes para os gabinetes, ou assinaram atos secretos da mesa diretora criando cargos e privilégios.

O clima na outrora respeitável Casa de Rui Barbosa é irrespirável, por conta das ilicitudes perpetradas como itens da rotina administrativa. Fala-se em chantagem aberta e ameaças de prisão. A oratória elegante foi substituída pelo palavrório de baixo calão.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google