O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ter agora diante de si, ou deveria ter, um balanço completo das últimas declarações feitas à nação, pois decerto já teve tempo para refletir, arrazoar e concluir uma porção de coisas. Lula fez inúmeras declarações, sabemos todos, reivindicando exagerado apego à ética ou atribuindo à elite a somatória dos dissabores que ultimamente infernizam seu cotidiano.
Todos os ditos presidenciais foram proclamados antes do depoimento de Duda Mendonça à CPMI dos Correios, passando a ser o divisor das águas nos trabalhos de apuração da verdade possível (tudo, jamais alguém saberá) sobre corrupção no serviço público, a extensão do relacionamento do PT com o publicitário Marcos Valério e a medida da contaminação da base congressual.
A reação imediata deu-se com o discurso da sexta-feira, 12, na abertura da reunião ministerial para discutir a crise e com o pedido de desculpas, posto que exprimido em plural majestático.
Duda revelara que parte do dinheiro recebido do PT pela elaboração do marketing da campanha de 2002 foi depositada numa agência do BankBoston nas Bahamas, por sugestão de Marcos Valério. Esta passou a ser a segunda referência sobre hipotética ramificação internacional da campanha de Lula, já que a primeira fora feita pelo deputado Roberto Jefferson, ao afirmar que o PT arranjou a ida do próprio Marcos Valério e Emerson Palmieri, tesoureiro informal do PTB, a Lisboa, para um encontro com o presidente da Portugal Telecom, empresa com pronunciado interesse no mercado brasileiro de telefonia.
Os jornais deram domingo passado a informação que o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, teria viajado dez vezes a Portugal. Isso complicou sobremaneira as coisas, à vista da declaração de Jefferson quanto ao objetivo da viagem de Marcos e Palmieri, nenhum outro senão a prospecção do grau de interesse da multinacional em contribuir com fundos para tapar rombos profundos nas contas do PT e PTB.
Por cima de todo esse caldo efervescente derramou-se o não menos corrosivo depoimento do doleiro Toninho da Barcelona, condenado a 25 anos de cadeia por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, citando os nomes do ex-ministro José Dirceu, do ministro Márcio Thomaz Bastos e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, como remetentes de dólares para o exterior.
Como se percebe, o imbróglio ganha a cada dia uma nova feição, pondo num beco inóspito e sem saída os membros da comissão, que já enfrentam enorme dificuldade para desembaralhar cartas jogadas à mesa por oportunistas, mentirosos e interessados em fazer o tempo regimental se esgotar, na esperança de fugir do alfanje pendente sobre seus pescoços.
Horas antes do discurso da Granja do Torto, a oposição inflou-se de brios ante a bola do impeachment ali, quicando na sua frente, oferecendo-se por inteiro. A tentação de atirar-se de cabeça na aventura chegou a ser enunciada – mesmo com a discrição de um mordomo inglês – por figuras de peso do PSDB e PFL. No começo da semana, a desenvoltura dos parlamentares que dera azo ao lançamento de contundente ofensiva na direção do presidente havia sido encoberta pela continência verbal, quiçá influenciada pela tradicional visita às bases.
Como lembraria o sagaz Leonel Brizola, a tropa está rodeando o alambrado. A oposição, porém, não se comprometeu a transformar aparente gesto de boa convivência e descortino político em autoconfissão de inapetência pelo combate ou por alimentar suspeitas sobre a ululante veracidade sugerida pela quantidade de evidências recolhidas até o momento. Segundo seus atiradores de elite, a melhor tática é continuar sangrando a pessoa do presidente, até que ele próprio reconheça o estado terminal e desista da candidatura à reeleição. Os traquejados em comer o mingau pelas bordas, como o senador Antônio Carlos Magalhães, alimentam o sonho de infligir humilhante derrota a Lula nas urnas, devolvendo a surra que o metalúrgico lhes aplicou antes do desembarque no paraíso.
Lula teria revelado a interlocutores não estar disposto a convocar o Conselho da República para não demonstrar fraqueza. Bobagem. O instrumento está previsto na Constituição e foi concebido para servir de instância superior de assessoria ao chefe do governo em momentos de crise política.
Faria bem ao presidente voltar ao passado de menino pobre e retirante nordestino, a fim de envergar mais uma vez as surradas vestes da verdadeira humildade. Presidente, não é sinal de fraqueza coisa nenhuma. Caso o senhor insista em lutar sozinho, sua legião de adversários terá mais facilidade para desferir o golpe fatal e levá-lo às cordas. Aproveite enquanto a maioria, já declinante, está a seu lado.
Ivan Schmidt é jornalista.