Ave, ragazza, antifascisti te salutant! – resposta a Ittala Nandi

Se não me falha a memória, é no Hamlet de Shakespeare que, atento à insanidade do príncipe dinamarquês, o personagem Polônio vaticina: ?É muita loucura. Mas devemos admitir que há método em tudo isso?… – ironia que cai como uma luva para a desastrosa pecha que a atriz Ittala Nandi acaba de presentear ao Paraná; segundo ela, ?o Estado mais repressor e fascista do Brasil?. Com destaque para as etnias italiana, alemã e polaca e sub(?)etnias truculentas, como os ?cracovianos?. Por que não sicilianos, bávaros ou bielo-russos minoritários na Ucrânia? Estranha lista, essa… Ex-viajeira com jeitão de beatnik cabocla, passagens pela clandestinidade política (ma non troppo) e o esoterismo indiano, uma das ex-musas do velho cinema novo, além de atriz bissexta de telenovelas, a direção da ?Escola Sul-Americana de Cinema e TV?, de nome tão pomposo quanto ineficiente, não poderia satisfazer sua necessidade de exposição. Com a frase desatinada, a postura mal-educada e a intenção shakespearianamente metódica, la Nandi conseguiu o que ansiava, para romper o tedioso anonimato de sua atividade de cine-educadora lá nos confins do olvidado Parque Castelo Branco: holofotes!

Toda provocação esperta visa aos ânimos exaltados. Já declarada ?persona non-grata? por um precipitado político nativo, agora, sim, é que a prima donna de Caxias do Sul teria a sua ?confirmação?: – Viram só? Vimos o quê, cara pálida? Filha do enólogo Massimo Nandi, imigrante italiano do Vêneto que chegou ao Rio Grande do Sul em 1908, la signorina Ítala ou a ?numerologicamente correta? Ittala é fruto (ou uva azeda, como queira…) da mesma e colorida cepa estrangeira – européia, árabe e oriental – que começou a aportar neste Novo Mundo, entre a Revolução de 1848 na Europa e a 1.ª República (1889) no Brasil. Aliás, como bem caracterizou seu mestre em teatro, José Celso Martinez Correa, no verso de um cartão-postal ilustrado por uma santa, durante sua primeira viagem à Itália: ?Ítala, todas as madonas da Itália têm a sua cara?… E agora a madona, cujo filho se chama Juliano, mas assina Giuliano, cospe na pia batismal, trai o sotaque por quê?

Suponhamos que a alma penada do Duce ande à solta, atraindo ?cavalos? (asnos?) para uma reencarnação: mas esta não é a agenda ?do paranaense? nem ?do curitibano?. É certo que por aqui resiste malcheiroso e nauseabundo caldo de cultura, mesclando insegurança caipira, a crônica inveja dos mal-sucedidos e incomodados, a formação de patotas cartorialistas, o boicote da competência. Falta curiosidade além-fronteiras e grandeza cosmopolita a Curitiba. Já foi dito que até mesmo o curitibano criativo hesita em cruzar o Rio Atuba, preferindo o inferno ao purgatório. Mas esta é uma anedota cruel na qual os nativos conseguem enxergar-se e rir, envergonhados. E mais: ninguém por aqui nem por acolá tem o direito de afirmar que somos modelares em tolerância e inclusão, ninguém medianamente sensível haverá de negar racismos de variada ordem (agora, importado, contra árabes e islâmicos) em nosso quotidiano. Mas a nação toda não padece de crônica falta de espírito republicano? Contudo, no Estado e em sua capital, ensaia-se sem grandes sacolejos – como, aliás, em todo o Sul do Brasil – uma das mais bem sucedidas experiências de convívio multicultural; apesar do predomínio de caucasianos cara-pálidas como a professora Nandi.

Afirmar que somos ?a? região ?mais repressora e fascista do Brasil? é uma desonestidade intelectual e uma indecência moral, porque tenta desviar nossas atenções do passado e do presente. Tenta escamotear a repressão semi-escravista exercida pela oligarquia rural cafeeira e estancieira contra os primeiros imigrantes que aqui chegaram, o terrorismo imposto aos trabalhadores japoneses nos cafezais de São Paulo, o abandono dos colonos poloneses e ucranianos nos sertões desabitados, ou ainda o xenofobia policial-terrorista que encarcerou europeus antifascistas durante o Estado Novo (este, sim, fascista!) e torturou com sadismo redobrado seus descendentes durante a ditadura militar; alemães e judeus, de preferência.

O destempero de Ittala Nandi fecha os olhos a certo apartheid histórico e excludente da burguesia da Zona Sul do Rio de Janeiro, amada cidade, mas trágico bastião brasileiro de intolerância, violência e terror. A propósito, professora: lembra-se da fúria racista das senhoras donas-de-butique do Posto 9, contra um ponto de ônibus, que ?desovaria? na impoluta e perfumada Ipanema a ?choldra morena? de Ramos? E, por falar em negrume histórico, este de acachapante origem geográfica: e a penca de generais que amarraram suas cavalgaduras do Catete ao Alvorada – eram paranaenses ou seus conterrâneos, gaúchos? Mas longe de mim passar-lhe qualquer ?fatura?: adoro o Rio Grande do Sul, chão nativo não apenas de golas-de-couro autoritários, mas território castiço da miscigenação, da utopia e do cosmopolitismo luso-hispânico.

É que ?repressão? e ?fascismo?, dona Ittala, são coisas muito distintas. Já foi dito e aceito à exaustão que espírito repressor genuíno é o que estão produzindo nosso sistema econômico-social, certo discurso da mídia eletrônica e seu ?deus? mercado. Também a família, desestruturada, fragmentada, geradora de ressentimentos, agressividade e desta depressão que a senhora afirma diagnosticar. E, como teatro de operações dessa teia neurótica, as cidades – projeção arruinada de nossos sonhos, tomadas por pitboys, traficantes e esquartejadores. Insensíveis e inclementes, cariocas, paulistanos ou curitibanos; que diferença faz a geografia? Já o fascismo puro-sangue requer uma idéia diabólica na cabeça e um povo boçal na mão. E no centro do palco, um Duce, um Führer, com discurso incendiário; cenário e protagonistas muito improváveis na atualidade brasileira, para a desolação de quem se candidate. O que, sim, choca, é o uso oportunista e leviano do termo: ?fascista? é mais que adjetivação espetacularista. É denúncia, associação com segregação e violência religiosa e racial, perseguição, campos de concentração e extermínio de massas – obscena fogueira da inquisição que não cabe em mofino fogacho da vaidade. Se a acusação não passou de diatribe para provocar e, ato contínuo, reverberar a ruptura anunciada, Ittala, então fica! Aclamar-te-emos como nossa Anita Garibaldi, nossa Joana D´Arc, nossa musa antifascista – Ama-nos e não nos deixe!

Frederico Füllgraf é screenwriter e diretor de cinema.

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