Ivan Schmidt

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Os paranaenses conheceram Orlando Pessuti no início do ano de 1983, quando assumiu seu primeiro mandato na Assembléia Legislativa, na crista da onda colossal de votos dados aos então candidatos ao governo, José Richa, e ao Senado, Alvaro Dias, que acabaram puxando a apoteótica votação dos pretendentes à Câmara e Assembléia.

Na ocasião, o PMDB elegeu uma penca de novos deputados, dentre eles o jovem médico veterinário extensionista da Emater-PR, que fez sua campanha nos municípios da região central, apoiado por parentes, amigos e produtores rurais que visitava na faina profissional. Desde então, Pessuti sempre renovou o mandato até receber a convocação para integrar a chapa de Requião, como vice-governador, na eleição de 2002.

Da bancada peemedebista empossada em 1983 faziam parte Caíto Quintana, Nestor Baptista, Artagão de Matos Leão, José Fonseca, Mário Pereira, Nelton Friedrich, Deni Schwartz, Rubens Bueno e tantos outros, numa composição que jamais se repetiu desde então. Ah, fazia também parte da bancada o até então esforçado advogado de associações de bairro, Roberto Requião de Mello e Silva.

Do pequeno grupo emergiram personalidades que até hoje pontificam na vida pública, como os conselheiros do Tribunal de Contas, Nestor Baptista e Artagão de Matos Leão, e o mais bem-sucedido de todos, Requião, que se tornaria prefeito de Curitiba, secretário de Estado, governador, senador e novamente governador, agora pela terceira vez. Poucos paranaenses podem ostentar no currículo uma carreira tão fulgurante na vida pública, ademais do raro privilégio de jamais ter tido a necessidade, ao que se saiba, de ocupar-se também de atividades privadas.

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Mário Pereira chegou ao governo estadual, para completar o primeiro mandato de Requião, mas após entregar o bastão a Jaime Lerner, abandonou a militância partidária retornando à carreira da engenharia elétrica. Deni foi ministro e hoje também está retirado e Nelton é diretor da Itaipu Binacional. Os demais continuam na planície.

Voltando ao vice-governador, se quisesse, estaria desfrutando a função de conselheiro do Tribunal de Contas, um dos cargos públicos vitalícios mais cobiçados em qualquer estado da federação, com um salário próximo ao dos ministros do Supremo Tribunal Federal e, quando chega o tempo, recompensado pelo ócio com dignidade da principesca aposentadoria.

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Mas, Pessuti esnobou a indicação para o Tribunal de Contas na vaga da Assembléia e tantas fez que a transferiu para o agora sem-mandato Hermas Brandão, aliás, num autêntico jogo de cabra-cega, porquanto o estadista de Andirá fora ungido para ser o vice na chapa de Requião, com o que não concordou o Tribunal Regional Eleitoral. Diante do (in)esperado, Pessuti voltou à condição de vice e, juram, de olho na candidatura à sucessão, trancou no armário a toga de conselheiro do TC. Em seu lugar, a Assembléia indicou Brandão, que também hesita assumir o cargo à espera de improvável (e imprópria) decisão da Justiça sobre o traslado de seu cartório interiorano para a capital.

Quanto a sonhar com a candidatura ao governo, um direito de qualquer indivíduo dedicado à política, sobretudo, com a folha de serviços do vice, somente um pormenor não foi levado em consideração: a vontade do todo-poderoso mestre-escola das terças-feiras iradas do Museu Oscar Niemeyer. O recado já veio e Pessuti não é o coelho que vai brotar da cartola do governador. Na verdade, o vice poderia desconfiar desde o momento da informação sobre a perda de influência na Secretaria da Agricultura. Mesmo o cargo pomposo de controlador das obras do governo, com um peteleco, foi imediatamente esvaziado da relevância inicial, quando se revelou que Pessuti seria, em resumo, um apontador itinerante, guardadas as proporções, paródia de mau gosto da função atribuída por Perón a Jorge Luis Borges, nomeando-o fiscal de abatedouros de galináceos e coelhos.

Por falar em paródia, imitemos Chico Buarque: o tempo passou na janela e só Pessuti não viu…

Ivan Schmidt é jornalista.