Avanço acanhado

A conjuntura econômica exige que cada um dos setores por ela alcançados assuma plena consciência de suas responsabilidades, contribuindo para que o conjunto de respostas e soluções torne o fardo mais suportável para todos. Essa é a necessidade que se impõe diante do contínuo aparecimento de realidades adversas apenas intuídas na véspera. O aparelho de Estado, graças à amplitude de seus instrumentos de ação, embora nem todos se comportem com a mesma disposição e celeridade quando se trata da prestação de socorro emergencial, para se redimir da arrogância demonstrada nos primeiros dias da crise, deverá empreender um esforço especial para saldar sua parcela da dívida e escoimar de uma vez por todas a falaciosa imagem que apregoava ser a economia brasileira um fortim inexpugnável.

Arrefecido em parte o estupor dos primeiros dias, tendo o bom senso voltado a orientar as análises de setores de inteligência da gestão pública federal, apesar das mazelas com as quais o País terá de conviver nos próximos meses, o sentimento generalizado é que os efeitos da crise serão absorvidos sem causar o mesmo impacto verificado nas economias desenvolvidas.

Um dos contratempos inevitáveis da crise, porém, será o crescimento bastante anêmico do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009, forçosamente corrigido para baixo pelos economistas do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo índice deverá situar-se entre 0,5% e 1%. Haverá também sério comprometimento na formação bruta de capital fixo (FBCF) até o mês de dezembro vindouro, com um débil avanço represado entre 2,5% e 3%. O discurso otimista, uma das marcas registradas do braço financeiro do governo para estimular a iniciativa privada a realizar investimentos em projetos produtivos e obras de infraestrutura, foi substituído por uma visão acanhada do crescimento econômico.

Para o economista Ernani Torres, superintendente da área de pesquisa e acompanhamento econômico do BNDES, em entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico, a sincronia da crise tem uma meticulosidade impressionante: “Não estamos diante da depressão dos anos 30s, mas a retração das economias, tanto desenvolvidas, quanto em desenvolvimento, num prazo curto, não tem precedente histórico. A ideia de que a situação já se resolveu, de que o pior já passou não é verdade. O crédito ainda está travado e vai ter impacto muito pesado nos países em desenvolvimento ainda este ano”. A impressão de Torres foi amadurecida ao participar do recente encontro promovido pelo Institute International de Finance (IIF), na Suíça, pródigo em análises e previsões sobre a atividade econômica planetária. Algumas dessas previsões, constatou o executivo do BNDES, “são catastróficas”.

A previsão do PIB global para o presente exercício não excede a 1,1%, ficando em 0,8% a taxa de crescimento calculada para o crescimento da economia brasileira no período. Os mecanismos de compensação, segundo Torres, poderão estar embutidos na queda dos juros e preços do petróleo, no caixa fortalecido das empresas e no estímulo financeiro aportado pelo BNDES. Além disso, o País contará com um novo perfil de investimentos em iniciativas que, por sua natureza diferenciada, não sofrerão solução de continuidade. Entre 2009 e 2012 a expansão de investimentos fixos na economia deverá correr na média anual de 9,6%, com o decréscimo de três pontos percentuais em relação aos 12% previstos anteriormente.

O desenvolvimento será puxado pelo setor de infraestrutura e construção de habitações populares, além dos projetos de energia elétrica, telecomunicações, petróleo e gás natural, aos quais serão agregados os investimentos previstos para o pré-sal. Nesse cenário, o BNDES terá sob sua responsabilidade o cumprimento da função precípua de garantir crédito para o setor privado deslanchar seus planos de expansão. Para isso, o caixa do banco recebeu uma injeção de recursos da ordem de R$ 100 bilhões.

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