Auto-suficiência é luta de cinco décadas

Neste tempo de redescoberta do Brasil, onde Pedro Álvares Cabral é questionado pelos ?novos descobridores?, a partir de 22 de abril monumental campanha publicitária invadirá as televisões brasileiras. O foco será a celebração da auto-suficiência do País na produção de petróleo. A data escolhida coincide com o dia que, em 1500, a esquadra cabralina aportava em Porto Seguro.

O ufanismo publicitário será dirigido na consagração do atual governo, como responsável pelo alcance dessa notável conquista para a sociedade brasileira. Um dos idealizadores é o publicitário Duda Mendonça, detentor de uma parte das contas da Petrobras, não obstante viver uma fase de inferno astral. O ?teatrinho? da apropriação indébita dessa conquista será direcionada para o governo Lula. Trata-se de uma mistificação redundante.

Não se trata de uma opinião. É o testemunho de um profissional que, por décadas, com orgulho, integrou na Petrobras o seu quadro de servidores. No dia 23 de maio de 2003, recebia no Rio de Janeiro uma homenagem, onde a Petrobras, pela sua direção, dizia: ?Em reconhecimento aos 40 anos de serviços prestados, a companhia lhe concede esse diploma?. Ato contínuo, aposentei-me. O que se segue é um testemunho de vida.

A vitória agora alcançada tem início em 1939, quando no campo de Lobato, no Recôncavo Baiano, era descoberta a primeira acumulação de petróleo no Brasil. Nos últimos 53 anos, desde a sua criação em 3 de outubro de 1953, através da Lei 2.004, votada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, a Petrobras tinha por objetivo executar as atividades do setor petróleo em nome da União. Ao longo de décadas enfrentou o combate e a resistência dos pessimistas de plantão. A própria campanha do ?o petróleo é nosso? foi o tiro de partida para a auto-suficiência agora alcançada. Ela é conquista de vários governos e, ao atingir a produção diária, em 2006, de 1,9 milhão de barris de petróleo, confirma a capacidade criadora da nossa gente. Foi uma cruzada de décadas, na qual técnicos e trabalhadores construíram com enorme competência essa notável realidade.

Não pode o governo Lula querer apropriar-se indebitamente de um feito que não lhe pertence. Provarei com dados e fatos. Um poço de petróleo na bacia marítima só começa a produzir 5 anos depois de descoberto. Já que o atual governo entra agora no seu quarto ano, a auto-suficiência decorre do trabalho feito em anteriores administrações. O grande salto tem um tempo e uma data: 1997, quando a produção diária de petróleo era de 869 mil barris/dia. Em 2002, seis anos depois, atingia a marca de 1,5 milhão de barris/dia. Uma taxa média anual de crescimento de 12%. No governo Lula, a taxa média anual é de 5%. Em maio de 2003, nos primeiros meses do atual governo, já se produzia 1 milhão e 640 mil barris/dia.

Historicamente, o grande arranque na produção deu-se na exploração em alto-mar, com a descoberta do campo de Garoupa, em 1974, na Bacia de Campos. E uma década depois, em 1984, a descoberta dos campos gigantes de Albacora e Marlin, em águas profundas, no litoral fluminense. Em 1996, na mesma área, a descoberta do campo de Roncador fez da Bacia de Campos a maior reserva petrolífera da plataforma continental brasileira. Aí reside a matriz da auto-suficiência do petróleo brasileiro, ao atingir 1,9 milhão de barris/dia.

A década de 80 foi fundamental nessa estratégia. A Petrobras iria detonar uma revolução tecnológica. Se vê diante do desafio de produzir petróleo em águas marítimas abaixo de 500 metros. Feito, até então, nunca conseguido por nenhuma petroleira do mundo. O seu corpo técnico enfrentou o desafio e decidiu desenvolver no Brasil a tecnologia necessária para produzir em águas profundas até 1.000 metros. Em exploração de petróleo no mar esse ?know-how?, criado pela empresa, é único no mundo, uma inovação que a coloca na vanguarda da tecnologia mundial. Ainda agora, persegue a meta de encontrar petróleo a mais de 3.000 metros de profundidade.

Todos os presidentes da República das últimas cinco décadas, os mortos e vivos, são credores dessa vitória. O mesmo vale para todos aqueles que dirigiram a empresa no mesmo período. Sob pena de apropriação indébita de um marco histórico que não tem o governo Lula como seu responsável. E querer usar a Petrobras como carro-chefe de campanha eleitoral é uma agressão à consciência de todos os brasileiros conscientes.

Em verdade, a vida da Petrobras, em cinco décadas, sempre foi superar grandes desafios. E a rota segura para o futuro é consolidar a auto-suficiência e buscar novas fronteiras exploratórias, objetivando a descoberta de outras fronteiras de petróleo e gás natural. É a sua missão, a sua vocação.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991) e é autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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