Audácia de um jovem e a transformação da educação

Dos 6,5 bilhões de habitantes da Terra, cerca de 1,1 bilhão são analfabetos. Por isso, as necessidades e as prioridades da globalização nos suscitam reflexão profunda sobre essa complexa e difícil situação educacional. As escolas de ensino fundamental e médio, as universidades, os meios de comunicação social e os governos têm poderes e responsabilidades para mudar essa realidade. É consenso entre os educadores que a formação integral é transformadora e libertadora. Só educa quem ama e deposita no coração, na alma e na mente do educando esperança, confiança, alegria, paz e harmonia.

Independente de posição social e econômica, crianças e jovens precisam traçar perspectivas e alimentar esperança no futuro, buscar felicidade em caminhos seguros e não se iludir com paraísos irreais. Cada dia me convenço mais que a mocidade está disposta a construir um mundo novo e melhor. Por natureza, o jovem é audaz e nutre expectativas que ultrapassam as coisas visíveis. Reconhecido como apóstolo da juventude, São Marcelino Champagnat foi um jovem revolucionário modelar, por não se conformar com a trágica ignorância humana e espiritual daquela época.

Canonizado pelo papa João Paulo II, em 18 de abril de 1999, padre Champagnat foi o fundador da Congregação dos Irmãos Maristas. Tendo como alicerces a humildade, a modéstia, a simplicidade e a confiança em Deus, viveu como vivem hoje, em sua maioria, os educadores, padres, religiosos, dirigentes e membros da nossa sociedade. Marcelino José Bento Champagnat nasceu em 20 de maio de 1789, em Marlhes, centro-leste da França. Por meio da educação familiar, seus pais, Maria Chirat e João Batista, inspiraram-lhe o gosto pelos estudos, a habilidade para os trabalhos manuais, o senso de responsabilidade, a abertura para o novo e a fé cristã.

Nessa época, a Europa passava por transformações profundas, oriundas da Revolução Francesa. Marcelino cresceu e foi educado em um contexto extremamente difícil. Logo depois de ser ordenado padre, em 22 de julho de 1816, foi nomeado vigário da paróquia de La Valla, aldeia isolada e região muito pobre. A par das atividades cotidianas de sacerdote, com urgência, traçou várias frentes de trabalho: visitar doentes, ensinar catequese, assistir pobres, acompanhar famílias. Em 2 de janeiro de 1817, aos 27 anos, instituiu a Congregação dos Irmãos Maristas. Quando faleceu, em 6 de junho de 1840, a Família Marista contava com 290 irmãos, atuando em 48 escolas primárias. No Brasil, a congregação começou atividades em 1897, em sua primeira escola na cidade de Congonhas do Campo, Minas Gerais. No País, hoje, estudam em instituições maristas mais de 100 mil alunos na pré-escola, ensino fundamental e médio e 60 mil no ensino superior. Mais de 50 mil crianças carentes são assistidas em obras sociais.

Presentes no Paraná a partir de 1924, os maristas administram e mantêm colégios e obras em Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, Itapejara d?Oeste, Toledo, Guaratuba, Paranaguá, Guaraqueçaba, São José dos Pinhais, Tijucas do Sul, Fazenda Rio Grande. Em Curitiba, as principais obras são a PUCPR, o Hospital Universitário Cajuru, o Colégio Santa Maria, o Colégio Paranaense, o Sistema Clube de Rádio, a Rádio Paraná, o jornal Voz do Paraná, a repetidora da Rede Vida de Televisão, a Editora Universitária Champagnat, o Círculo de Estudos Bandeirantes, a Rádio FM e a TV Lúmen.

Ainda, os maristas administram a Aliança Saúde PUCPR-Santa Casa de Curitiba.

Este conjunto de obras comunitárias e educacionais é modelo de transformação social. Pacientes, os pais de Marcelino educaram com amor, afeto, disponibilidade e presença. Corajosamente, Champagnat tomou a iniciativa e fez as coisas acontecerem, nas salas de aula e fora delas, nos hospitais, nas famílias, nas organizações, no campo, nas cidades e em todos os ambientes onde viveu e atuou. Os ideais de Champagnat são cultivados e frutificam nos cinco continentes do globo terrestre.

Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e integrante da Academia Paranaense de Letras.

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