Ivan Schmidt

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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é, de longe, de todos os ex-presidentes vivos, e aí ainda estão José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco, aquele que encarnou com maior volúpia o papel de palpiteiro-mor da República, assumindo de bom grado a condição de eminência parda da oposição ao mandatário que lhe sucedeu no cargo.

Na gesta de Fernando Collor e José Sarney aconteceu algo parecido, apenas com a diferença que as críticas foram verberadas ao antecessor, havendo momentos de exaltação verbal na maioria das vezes injustificada, porquanto o sucessor alvejava sem piedade o ocupante anterior da Presidência da República. Mesmo sem ser implacável como Collor nos ataques desferidos a José Sarney, após entregar a faixa presidencial a Fernando Henrique Cardoso, que havia sido seu ministro da Fazenda e estimulado a deixar o governo para ser candidato e disputar a eleição pelo próprio presidente Itamar Franco, este não economizou críticas ao sucessor.

Mas a diferença fundamental entre Collor e Itamar quanto à forma de criticar foi que se o primeiro assestava a metralhadora contra Sarney e abria fogo, por qualquer motivo, o segundo exerceu a crítica de forma construtiva, sem apelar para baixarias ou agressões gratuitas.

Fernando Henrique não segue os passos do arrogante político alagoano, um dos maiores blefes da política nacional nos últimos anos, mas tampouco tem posto em prática a elegância que se espera de um luminar da sociologia ao criticar o governo Lula, preferindo manter-se distante da proverbial bonomia da mineiridade, que tem no ex-presidente Itamar Franco um de seus mais exímios cultores.

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A derradeira manifestação de FHC, para quem ?a ética do PT é roubar? foi de um destempero atroz, inteiramente deslocada no vocabulário de um ex-presidente e, tanto quanto é possível raciocinar sob o impacto das desventuras que abalaram o partido, não é possível concordar com a diatribe. Ora, o PT não é em absoluto um harém habitado por virgens angelicais, mas em contrapartida não se adapta ao figurino que FHC, na cruel estocada, tentou lhe impingir.

Aliás, a resposta do deputado Ricardo Berzoini, presidente nacional do PT, no mesmo espaço utilizado por FHC, o programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, veio em tom adequado. FHC não só não é o dono da ética como parece ter sido vítima de súbita amnésia, pois dá a impressão de ter olvidado por completo o expediente usado para aprovar a emenda da reeleição, as negociatas da privatização das teles, os escândalos acobertados no mercado financeiro e outros achaques à probidade administrativa.

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Enfim, FHC padece do mal característico dos que já desfrutaram o poder e foram alijados. Mais esperto foi o ex-presidente Sarney, que se elege continuamente ao Senado pelo Amapá, estado onde provavelmente nunca esteve antes, decerto pela consciência de que ficar fora da cena seria a liquidação. O príncipe almejaria, quem sabe, algo mais modesto como a secretaria geral da ONU e, se isso ocorre é por ter albergado na alma o sentimento de que a mediocridade de certos ambientes não lhe diz respeito. A análise foi feita dia desses por arguto analista.

O ex-presidente acaba de lançar um livro de memórias em inglês e nos Estados Unidos. A suposição mínima é desconfiar se haveria por lá público tão ansioso para conhecer detalhes da trajetória de um ex-professor de sociologia da USP que, esnobado pelos esbirros do golpe de 64 por vontade própria se exilou no Chile e, depois do golpe de Pinochet, em Paris, onde viveu como autêntico burguês esclarecido. É possível que haja interessados no ambiente acadêmico, mas de qualquer forma não se exime do evento uma dose maciça de esnobismo.

Anuncia-se para breve o lançamento de outro livro de FHC, e esse deverá conter suas impressões sobre o desempenho do Partido dos Trabalhadores e do governo Lula. Dizem que sairá em cima das eleições com o intuito de agitar o coreto. Melhor seria se o mestre da sociologia, diga-se, menos importante que Barbosa Lima Sobrinho, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos ou Nelson Werneck Sodré, personalidades que de fato estabeleceram escolas de pensamento, tivesse meditado na observação de Ortega y Gasset n?A rebelião das massas (Martins Fontes, SP, 2002), sobre o que escrevera anos antes: ?Teria sido, pois, uma excelente ocasião de se praticar a obra de caridade mais apropriada a nosso tempo: não publicar livros supérfluos?.

Ivan Schmidt é jornalista.