Há muito mais coisas pairando no ar que os urubus e aviões de carreira, como costumava dizer com seu apurado senso de humor o gaúcho radicado no Rio de Janeiro Aparício Torelli, mais conhecido pelo pseudônimo Barão de Itararé, com o qual assinava as vitriólicas crônicas publicadas no desbocado jornal A Manha, sempre que pretendia desancar algumas figuras detestáveis do Estado Novo. Não se sabe se é mera coincidência, mas o clima respirado hoje em diferentes instâncias republicanas, cujo traço comum deveria ser o zelo intransigente pela integridade institucional, está pesadamente contaminado por gases pestilentos que emanam dos esgotos em que escorre uma mescla perversa de felonia, boataria e maledicência.
Até quando a sociedade assistirá passivamente o desenrolar dessa nefanda teia do disse-que-me-disse, sem que uma providência enérgica e definitiva seja tomada por quem de direito? Até quando os principais dirigentes dos poderes constituídos prosseguirão com o jogo do faz-de-conta, esgrimindo entre si e com a própria nação, mediante frases feitas inçadas de dubiedades e lugares comuns?
Afinal, a essa altura dos acontecimentos, quem está falando a verdade e quem está blefando, para não usar expressão mais apropriada ao contexto apesar de sua rudeza, escarnecendo dos cidadãos comuns que custeiam o banquete da elite encastelada nas altas esferas diretivas do País?
O enunciado se justifica diante do novo capítulo da rumorosa novela propiciada pela Operação Satiagraha, chefiada pelo delegado federal Protógenes Queiroz, cujo desfecho foi a ordem de prisão do banqueiro Daniel Dantas, expedida pelo juiz Fausto de Sanctis, da Justiça Criminal Federal de São Paulo. Dantas foi condenado pela comprovação dos indícios da tentativa de subornar dois policiais federais envolvidos na investigação. Com uma celeridade poucas vezes testemunhada antes, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), assinou duas ordens consecutivas de soltura do banqueiro que, assim, passou apenas uma noite no cárcere da Polícia Federal.
A tal operação desencadeou uma série de descobertas posteriores, como a utilização de quadros da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), caracterizando um condenável desvio de função, ademais de escancarar a profunda rusga existente entre os diretores da Abin e da Polícia Federal, com respingos indisfarçáveis sobre o gabinete do ministro da Justiça, Tarso Genro. O relatório produzido pelo delegado Protógenes Queiroz foi considerado inepto e deveria ser refeito por expressa determinação superior. Em poucas semanas o delegado substituto concluiu o trabalho, quem sabe, trocando a ordem de alguns parágrafos, vírgulas e pontos de exclamação.
Tanto que o juiz Fausto De Sanctis expediu uma terceira ordem de prisão contra o banqueiro Daniel Dantas, conquanto lhe assegurasse o direito de apresentar sua defesa em liberdade. Todavia, nesse período Protógenes começou a ser investigado pela Polícia Federal, que apreendeu computadores e outros documentos pessoais em domicílios próprios ou de familiares do delegado. A revista Veja dessa semana publicou uma reportagem dando conta que Protógenes bisbilhotou a vida particular do ministro Gilmar Mendes, da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e de seu colega da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, além do secretário particular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, do senador Heráclito Fortes (DEM-PI) e do ex-ministro José Dirceu.
O indigitado ex-homem de ouro da Polícia Federal se limitou a dizer que sempre agiu com base na Constituição e, em caso de enquadramento a medida será totalmente arbitrária. De passagem, lembrou que enquanto isso “o banqueiro bandido” está em liberdade para agir contra ele e contra o juiz que “o condenou a dez anos de prisão”. Protógenes vê nisso uma “inversão de valores”, tanto na competência do Judiciário quanto nas atribuições da instituição a que serviu por tantos anos. Até quando?