Ivan Schmidt

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Jorge Luis Borges, num ensaio sobre Swedenborg, uma de suas mais ardentes inspirações, escreveu: ?Os infernos… são zonas pantanosas em que há cidades que parecem destruídas por incêndios; porém aí os réprobos sentem-se felizes. Sentem-se felizes a seu modo, ou seja, estão cheios de ódio e não há governante nesse reino; continuamente estão conspirando uns contra os outros. É o mundo da baixa política, da conspiração. Isso é o inferno?.

Essas palavras talvez nos ajudem a entender um pouco melhor o que se passa na política brasileira, presa de uma armadilha há muito tempo e, de forma sorrateira, colocada no caminho dos dirigentes de maior expressão. O aturdimento pela queda alastrou-se por toda a sociedade, sendo praticamente inútil, até agora, no objetivo de referenciar a cidadania, o conjunto de fatos explicativos produzido pelos círculos superiores da inteligência, aí compreendidos como universidade, igreja e academia.

Em dezembro do ano passado, o filósofo José Arthur Giannotti, em entrevista à revista Cult, falando sobre a participação do intelectual no espaço público da política, já advertia para uma complicação factível, porque o intelectual ?pode estar voltado para o futuro levando em conta o passado e o presente ou pensar esse futuro na sua imaginação?, arriscando um prognóstico pouco louvável: ?Então vira um militante imaginário e, nesse sentido, se desengaja de si mesmo?.

Giannotti afirmou, ainda, que o intelectual deve estar disposto a abdicar de seu pensamento e a limitar a imaginação, sobretudo, os sonhos, porque quase sempre isso nada tem a ver com o embate político cotidiano, aceita a premissa que depois de Maquiavel a política ?simplesmente não é a realização do bem comum?.

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Seis meses depois, em julho último, o filósofo falou à Primeira Leitura, quando a crise política encostava, definitivamente, o governo Lula nas cordas. Entre outras coisas disse, sem qualquer extravagância na linguagem conceitual (mesmo provocado pelas perguntas de Reinaldo Azevedo) e, apesar da gravidade da crise, que ?a esquerda sempre teve um compromisso com a democracia?, ressalvando, porém, que no caso do PT a coisa ficou muito ambígua: ?Algumas facções continuam a pensar que estão dentro de uma democracia representativa apenas como uma etapa intermediária. Cada grupo, dentro do PT, pensa a democracia de uma maneira diferente?.

Alguma defesa para o antagonismo protagonizado pelo modelo petista de governar, segundo Giannotti, é que todo processo de esquerda, em qualquer lugar do mundo, derivou para o centro. ?O capitalismo está aí, tem novas formas, a sobrevivência dele não está sendo ameaçada e, portanto, a questão é como nós vamos nos relacionar com ele.? O filósofo lembra que o sistema político pressupõe uma esquerda que, mesmo fora do governo, pense além do possível e se bata pelo lado utópico. E explicou: ?O que aconteceu no Brasil é que o lado utópico ficou arrochado. O partido que era a bandeira da utopia não só pratica uma política absolutamente centrista e, no caso da política econômica, mais centrista do que era antigamente?.

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Quanto ao silêncio dos intelectuais, Giannotti teve a honestidade de frisar que o mesmo ocorria no governo passado, com a ida de FHC para o centro, ?junto com seus intelectuais acólitos?, desnorteando a academia. A seu juízo, a academia está cada vez mais fora dos processos políticos e científicos e esse é um fenômeno mundial: ?Então, o problema é que a universidade brasileira, em grande parte, principalmente nas ciências humanas, deixou de ser um ponto de reflexão sobre a normatividade que o presente possa ter?.

É nessa linha que se deve situar o desabafo da filósofa e militante petista Marilena Chauí, em carta a seus alunos da USP, datada de 31 de agosto e publicada pela Folha de S.Paulo na edição de 21 deste mês. No texto, a professora esclarece que o ?silêncio? atribuído a ela e outros intelectuais do petismo foi ?construído? pela imprensa. A certa altura, diz que ?a mídia está enviando a seguinte mensagem: somos onipotentes e fazemos seu silêncio falar. Portanto, fale de uma vez. Não é uma relação de poder, e sim de força?.

Dito de outro modo, Marilena reivindica o direito ao silêncio ao mesmo tempo que repele a interpretação da mídia (ou parte dela), ao ver nesse recolhimento a falta de argumentos para defender um governo metido em enrascada. Talvez seja oportuno lembrar o que escreveu o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos no jornal Valor, frase transcrita por Raimundo Rodrigues Pereira, na CartaCapital, de 14 de setembro: ?A grande imprensa em países em desenvolvimento é a grande porca das instituições?.

O prêmio Nobel de Literatura de 2002, o húngaro Imre Kertész, sobrevivente de Auschwitz, no magnífico livro Yo, otro (Acantillado, Barcelona, 2002) refere-se a uma conferência dada em Hamburgo sob o título ?O intelectual supérfluo?. Não que esse seja dispensável ou arcaico, mas porque é também susceptível aos anseios, mágoas e frustrações corriqueiros a todos os homens. Alguém com CPF, identidade e impostos a pagar, resume Giannotti. Kertész dizia: ?A lógica me oferece brilhantes verdades, e cada uma delas se abre a meus pés como uma armadilha. Quanto mais argumentos acompanham meu postulado, mais me afasto da verdade e já que participo de um jogo de linguagem cujos componentes são todos contrários à verdade, movimento-me num sistema de idéias que a tudo falseia?.

Portanto, não é justo condenar o intelectual engajado só porque prefere guardar silêncio em relação a coisas que o atormentam. Kertész escapou do Holocausto, mas não de sua própria insegurança. Não teve pejo de confessar ter dúvidas até da contrariedade que lhe causavam certos temas.

Intelectual em silêncio, portanto, não é um intelectual supérfluo.

Ivan Schmidt é jornalista.