As razões da refundação

Por que algumas coisas – de modo especial na vida pública – não funcionam no Brasil? Não há apenas uma resposta, tendo em vista o autêntico mosaico das causas primevas que acabaram gerando esse monstrengo institucional que é o nosso sistema político-partidário. Uma imensa ramificação de grupos constituídos em legendas, a rigor, coincidentes na defesa da posição ideológica de centro-direita.

Nesse modelo podemos encaixar PSDB, PFL, PTB, PP e PL, além dos partidos-anões sem nenhuma expressão eleitoral, mas que a cada eleição regional ou nacional sempre aparecem para dar suas bicadas no universo de votantes inscritos pela Justiça Eleitoral. O normal é que esses partidos passem a integrar extensas coligações, não raro com até uma dúzia de componentes, cujo cacife mais apreciável é o tempo disponível no horário gratuito em televisão e rádio.

Como subproduto dessa anomalia, a partícula do todo partidário acaba elegendo alguns vereadores, deputados estaduais e federais e, em número razoável de municípios médios e pequenos, até os prefeitos. Ocorre quase sempre com os políticos que conseguem obter uma cadeira na Câmara dos Deputados a migração para uma legenda mais expressiva, sobretudo quando entra em ação o rolo compressor para a formação da base de apoio parlamentar do governo.

No início do governo Lula viu-se brutal troca de legendas por parte de deputados federais, atraídos pelo pega-mosca instalado, mormente no PP e PL, legendas que sofreram um processo de inchamento sem precedentes pela aspiração de enorme quantidade de eleitos pelo PFL, PMDB e outros.

As posições de centro-esquerda ou esquerda socialista estão guarnecidas pelas tropas ainda leais ao PPS, PSB, PCdoB e PSOL, havendo alguns heróicos resistentes no PT e PMDB, restando a incógnita representada pelo PV. O deputado federal Roberto Freire, uma das figuras de primeira plana nas articulações do referido bloco, tem-se esforçado para transmitir à nação, profundamente machucada pelos desvios éticos perpetrados com participação direta de alguns dirigentes do PT, que a verdadeira esquerda brasileira não teve, ainda, a oportunidade de ser testada no exercício do poder e, tampouco, implantar seu projeto de governo.

Freire tem assumido o papel de pregoeiro das virtudes do pensamento socialista como alternativa que o País jamais pôde conhecer por inteiro e, destarte, propondo uma conjugação de esforços capaz de colocar em exame um projeto de governo baseado no desenvolvimento com justiça social, na distribuição de renda, moradia, saúde, educação e outros pontos fundamentais sempre presentes no rico vocabulário dos candidatos.

Apesar do supremo destaque que ganham no discurso dos candidatos aos governos estaduais e à presidência, os itens lembrados, qualquer que seja o candidato eleito, dificilmente recebem a dose adequada de nutrientes para deixar o sombreamento da demagogia eleitoreira e irromper como promessas realizadas.

Nesse particular, faz sentido o esforço dos partidos de esquerda, pois a bandeira que levantam nada tem a ver com o estado da arte resultante da malograda atuação do quadrado mágico do comissário do povo José Dirceu (Genoino, Delúbio, Silvinho e Sereno), cegamente submissos às ordens do ex-chefe de Waldomiro Diniz. Não é justo enquadrar como realização da esquerda socialista as barbaridades cometidas por essa parcela contaminada da cumeeira petista e com palpável ingerência no governo.

A própria esquerda do PT, desde o início do escândalo, mostrou total antagonismo aos malfeitos dos referidos dirigentes, tendo sido a que mais candidatos a presidente do diretório nacional inscreveu para a eleição disputada neste domingo: Plínio de Arruda Sampaio, Raul Pont e Valter Pomar. O resultado do pleito só será conhecido no final da semana.

Não seria estranho se em caso de vitória de um desses postulantes – a chance maior está com Plínio de Arruda Sampaio (na real parece que vai dar Berzoini) -, o PT refundado, como sonha o interino Tarso Genro, viesse a ombrear-se com os partidos de ideologia afim, embora haja a delicada questão ainda posta da candidatura de Lula à reeleição. Esse será, porém, o complicador intransponível para os partidos de esquerda, cuja disposição de apoiá-lo novamente é nula. Assim, o PT teria de marchar isolado para a eleição presidencial, vez que a deletéria relação com PTB, PP e PL está condenada e nem com reza braba será deglutida pelos eleitores.

Como determinadas coisas jamais se realizam na vida pública brasileira, qual seja um político independente, liberto da tutela da classe dominante e, de verdade, comprometido com o anseio popular, exercer em plenitude o poder emanado das instituições republicanas, 2006 pode marcar o retorno à presidência de um homem que não submeta o País e o governo aos percalços atuais.

Na verdade, esse homem bem pode continuar sendo Luiz Inácio, tão-somente esteja disposto a dar um passo à frente e desvencilhar-se das ?más companhias? que tanta contrariedade causaram. Nesse raciocínio bastante imaginativo, mas não impossível, dar-se-ia a refundação do PT sob o comando de Lula, sendo alijados todos quantos torceram o nariz a seus novos mentores.

Refiro-me àquele pessoal do andar de cima que respirou aliviado ao concluir a leitura da Carta dos Brasileiros. Cruzemos os dedos para evitar esse abismo.

Ivan Schmidt é jornalista.

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