Emília G. Hardy
Alguns pais ou mães, além das ?tias? antigas, ficavam embevecidos quando alguém dizia: ?Seu filho estuda na Escolinha Tal?? ou ?Você é dona da Escolinha Xis??
Eu não! Sempre me incomodou bastante quando alguém se refere assim às escolas de educação infantil. Não são ?escolinhas?! São escolas.
Por que o incômodo? Porque por trás desse diminutivo aparentemente carinhoso está uma conotação pejorativa. Escolinha lembra fundo de quintal, lembra um lugar onde se cuida de crianças, lembra babás de luxo, lembra um espaço precário, mal administrado, com um trabalho pedagógico menos importante. Durante muito tempo foi assim (e ainda é, infelizmente, no caso de muitas instituições).
Pois o tempo de vida das ?escolinhas? está contado – e é curto…
Não fosse pela falta de cuidado com o principal, que é a qualidade do trabalho pedagógico, ou seja, o conhecimento como objetivo maior, aliado a uma visão ampla de educação e uma administração eficiente, poderia ser por outros fatores, como a queda na taxa de natalidade, por exemplo, que vem acirrando a concorrência já há alguns anos. Agora, além desses fatores, as pequenas escolas de educação infantil se vêem às voltas com um problema de certa magnitude: o ensino fundamental de nove anos e a forma como ele foi definido.
Um tanto contra a corrente, defendi a idéia de que as crianças completassem a etapa da educação infantil e que, depois, com seis para sete anos, entrassem no ensino fundamental de nove anos. Temos razões sólidas para defender, enquanto educadoras, este ponto de vista. Por alto: as crianças amadureceriam de forma mais ampla na etapa da educação infantil e, depois, nos estudos posteriores (do 1.º ao 9.º ano) as escolas poderiam formar alunos e alunas mais bem preparados, que chegariam mais aptos ao ensino médio, mais autônomos e com bases mais sólidas.
As famílias de classe média e alta ainda acreditam que ?ganhar? um ano é uma grande vantagem e algumas escolas perceberam aí uma oportunidade. Assim, a causa da educação de qualidade saiu perdendo. Resultado: crianças de cinco anos foram parar no 1.º ano e praticamente extinguiu-se o último ano nas escolas de educação infantil.
Se algumas delas já vinham amargando dificuldades pelas razões que apontei acima, agora têm nas mãos uma crise de razoáveis proporções.
Existem soluções?
Um caminho, que não é exatamente ?solução?, mas parte do problema, já foi descoberto por Darwin há muito tempo: os mais aptos sobreviverão. Ou seja, aquelas escolas que conseguiram se atualizar, aprimorar o seu trabalho, repensar seus espaços, formar profissionais de qualidade (chega de ?tias?!) e aprender a administrar seu caixa (muitas vezes um tanto subnutrido) estão na raia, brigando pelo espaço do mercado. São escolas que se prepararam para o trabalho com as crianças pequenas, conhecem suas necessidades e têm propostas específicas para até os seis anos de idade (e que vão muito além do ensinar a ler e escrever…).
Estas escolas precisam entrar na luta, que ainda não está perdida. Se as crianças perderam a possibilidade de estar ainda mais bem preparadas para o futuro (com um ano a mais de escolarização e amadurecimento), as pequenas escolas de educação infantil (não as ?escolinhas?…) podem ainda encontrar saídas – para si e para a melhor adequação das crianças ao processo de crescimento e de aprendizagem. Podem fazer escolhas.
A primeira delas: concentrar seus esforços de qualidade para as faixas de idade até os cinco anos, ampliando sua oferta para as turmas iniciais.
Outra: mostrar às famílias, com competência, que faz diferença, sim, conhecer as características e a melhor forma de trabalho com as crianças dessa faixa etária. Que elas têm muito a amadurecer antes de enfrentar certos desafios… As crianças hoje são mais ?espertas?, mais cedo? Há muito de ilusão nisso e é preciso saber mostrar isso.
Mais uma: batalhar por caminhos ?burocráticos?, que já estão sendo viabilizados em outros estados. Por exemplo: no Rio de Janeiro saiu, há pouco tempo, uma lei estadual que autoriza as escolas que só possuem o trabalho de educação infantil a associarem-se a outras (que têm o ensino fundamental) e possam, assim, oferecer o 1.º ano. Afinal, da forma como a lei ?vingou?, o trabalho acabará se mantendo com as características do então Nível III. Depois disso, as crianças ganham sua transferência para o 2.º ano, indo para a escola que seus pais escolham.
Para que isso aconteça, é preciso coesão dessas escolas na defesa de uma idéia que é também do interesse dos pais. Afinal, um grande número de famílias não quer que seus filhos pequenos saiam tão cedo para o amplo universo das escolas de ensino fundamental (muitas vezes grandes escolas) e preferem que as crianças permaneçam mais um ano se preparando adequadamente para isso. De mais a mais, o que mudou, principalmente, foi o nome: em vez de Nível III, agora a turma é chamada de 1.º ano.
É preciso destacar: falamos aqui de um grupo bastante privilegiado, o universo das escolas da rede privada. Na rede pública (a longo prazo), as crianças e a educação saíram ganhando. Que ótimo! Agora os pequenos são obrigados a entrar mais cedo na escola.
Emília G. Hardy é psicóloga, com especialização em currículo e administração, diretora da Escola Palmares e da Pirilampo Educação Infantil.