Na ciência política, um bom estrategista não deve empreender nenhuma operação que deteriore sua força. Por esse princípio básico, candidatos devem evitar ações que os tornem fracos perante os eleitores. Ao contrário, aconselha-se que os contendores usem na luta política todo o arsenal do perfil – conhecimento, valores, habilidades e atitudes – mais as táticas e os recursos que têm a ver com o campo das motivações psicológicas das platéias. Há, portanto, uma liturgia no jogo político que deve ser preservada, sob pena de tornar ineficaz o processo a que se submetem os candidatos. A premissa está por trás da preocupação do comando do PT com a postura do candidato Lula. Em forma de dez mandamentos, produziu-se uma cartilha para aconselhar o presidente a evitar situações que o partido considera negativas ou polêmicas: dar entrevistas coletivas, participar de debates, aparecer no comitê central de campanha e visitar colégios eleitorais pequenos, entre outras. Trata-se do marketing do ?não?. Objetivo: esfriar a campanha e preservar a aura do candidato.
Mesmo que negue, o PT agirá de acordo com o velho manual de instruções que passou a usar desde que Duda Mendonça fez uma plástica na carranca raivosa de Lula dos idos metalúrgicos do João Ferrador (?hoje, não tô bom?), adicionando-lhe uma pitada de Madre Tereza de Calcutá. Todo o esforço se volta para imprimir à campanha o tom emocional que Joseph Goebbels enxertou nos discursos de Hitler e cujo eixo era uma seqüência de chicotadas psíquicas para reavivar nas massas a fé no nazismo e a devoção ao líder. Um pouco antes, em 1939, nos EUA, as pesquisas do dr. Ernest Dichter, psiquiatra de formação, revelavam que o eleitor presta mais atenção aos gestos, às expressões, ao sorriso de políticos que ao conteúdo de seus discursos. A emoção prevalece sobre a razão. Dizia o pesquisador: ?Conquanto o racionalismo seja um fetiche do século 20, o irracional puro constitui com freqüência a chave de nossa conduta, sendo, portanto, mister sondar o inconsciente?.
Pois bem, o candidato Luiz Inácio ganhou a eleição de 2002 montado na cavalgadura emocional. Lula demonstrou que poderia ser o ajudante de Sísifo, condenado pelos deuses a eternamente carregar uma pedra e depositá-la no topo da montanha. Começa novamente a desfraldar a bandeira da emoção para dizer aos brasileiros ser o único capaz de levá-los ao cume da montanha. E de lá para o Éden. O candidato sabe prometer como nenhum outro. Ao longo do mandato, lapidou o discurso de maneira exemplar, abarrotando as locuções com metáforas de fácil digestão, fazendo chiste, carreando aplausos, arrumando formas de engajamento eficazes e, sobretudo, tocando o coração das massas. A onda da crise política passou ao largo da ilha em que se isola. Continua a ser o mais forte ícone da política. À pergunta sobre a razão para tanto, a arte dramática oferece explicação. Vejamos em que escola Lula aprendeu, mesmo de maneira intuitiva.
Pelo método de Stanislavski, que dirigiu o Teatro de Arte de Moscou e inventou um sistema de atuação realista para a arte teatral, o intérprete se exercita para experimentar os sentimentos do papel, revivendo-os. Anulando-se diante do personagem, o ator vive a aventura da peça. Sente-a em toda a plenitude. Brecht prega outra visão: ao ator se impõe assumir sentimentalmente o personagem, identificando-se com ele, mas, como no teatro chinês, usando a máscara para dar a impressão de separação entre intérprete e interpretado. Já no método de Lee Strasberg, fundador da escola de arte dramática que formou atores como Marlon Brando, o ator pode cultivar e ostentar o seu eu. O palco é o espaço para a experiência pessoal, onde o ator encontra sua verdadeira personalidade. Não se anula. Personagem e personalidade se confundem gerando comoção. A platéia identifica-se com o herói, seus ditos e desditos. Emoções sinceras se confundem com emoções fictícias. ?O Estado sou eu?, usado por Luís XIV, é o axioma dessa escola. Lula entrou nessa. Basta rememorar a recorrente colocação que o Brasil passou a freqüentar na história depois dele.
Com esse trunfo peculiar aos absolutistas, Lula tentará escapar do embate democrático que se espera do pleito presidencial. Se seguir a orientação do PT, ficará refugiado no escudo do simbolismo e da liturgia presidencial, deixando os outros contendores falando ao léu. Para alegria do marketing lulista, o adversário mais forte tem perfil racional. Nesse ponto, a disputa eleitoral ingressará no terreno do confronto entre emoção e razão, catarse e lógica. Esses fatores pesarão na decisão do eleitor. O marketing petista continua a apostar no caráter emotivo das massas que, embaladas pelo manto simbólico de Lula, poderão levar o candidato a conquistar, mais uma vez, a Presidência. O eleitorado de Alckmin agrupa setores mais racionais.
Por último, um elemento complicador: a personalidade de Lula. Há o risco de o presidente sofrer a síndrome do touro e dar uma de Zidane: pensar com o coração e arremeter com a cabeça. Uma frase mal colocada ameaça pôr tudo a perder. Eis o risco que a cartilha do marketing petista quer administrar.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.