Ivan Schmidt

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Há exatos 53 anos, no longínquo 24 de agosto de 1954, o Brasil se estupidificava ante o suicídio de Getúlio Vargas, engolfado pelo mar de lama que fluía dos porões do Palácio do Catete, bombasticamente revelado à nação pelo IPM instalado pela Aeronáutica para apurar as causas da morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz, num dos inúmeros protagonismos castrenses de nossa história, logo denominado pelos jornais de ?República do Galeão?, então o espaço físico usado pelos oficiais da FAB para a tomada dos depoimentos.

Estabelecer com o centro do governo os liames da trama que levaram ao atentado da Rua Toneleros, na noite de 6 de agosto, com a encomenda da morte do deputado Carlos Lacerda, líder da oposição a Vargas e dono da Tribuna da Imprensa, apelidado de Corvo pela ferocidade dos ataques ao presidente e familiares, foi para os falcões do IPM como tirar pirulito de criança.

O pivô do esquema fora o próprio chefe da segurança pessoal de Vargas, o enorme negro Gregório Fortunato, que acompanhava o patrão há muitos anos, desde os tempos de São Borja, no pampa gaúcho. Deu no que deu.

Tantos anos depois e com tudo o que se escreveu sobre a era Vargas e seu desfecho atroz, ainda é difícil chegar a conclusões definitivas sobre o gesto final do homem que amealhou, com a mesma picardia, em proporções rigorosamente iguais, tanto adoradores quanto inimigos jurados. Diga-se o que quiser, mas se conceda o ato de justiça de identificar no caudilho a figura soberana da política brasileira ao longo desse meio século.

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Aliás, foi o que escreveu o cientista político João Trajano Sento-Sé na biografia de Leonel Brizola, editada em 1999, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV): ?É curioso perceber como Vargas e seu legado estão, principalmente a partir da metade dos anos 80s, mais enraizados na elite política brasileira do que no próprio imaginário popular. Destruir o legado varguista, e o modelo de Estado por ele construído tem sido a obsessão e, em certa medida, o fracasso de boa parte das elites políticas?.

Chefe da Revolução de 30, Vargas empalmou o poder após a deposição de Washington Luiz, anulando a posse do presidente recém-eleito, o paulista Júlio Prestes, que não havia respeitado o acordo político ?café com leite?. A vez seria do mineiro Antônio Carlos, mas sua preterição acabou alinhando-o a Getúlio, como ocorreu também com a Paraíba. O apoio dos demais estados veio em vertiginosa cascata.

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A 10 de novembro de 1937, Getúlio deu um golpe no golpe e instaurou o Estado Novo, passando de presidente constitucional a ditador de fato e de direito, graças à Constituição produzida, à feição, pelo advogado integralista e porta-estandarte do nazi-fascismo, Francisco Campos. Segundo a historiadora Lourdes Sola em Brasil em perspectiva (Difel, SP, 1982), volume organizado por Carlos Guilherme Mota, ?entre os principais articuladores do golpe encontravam-se elementos de cúpula das Forças Armadas, já integrados ao governo, general Góis Monteiro, chefe do estado-maior do Exército, general Gaspar Dutra, ministro da Guerra, e militares de sua confiança?.

O presidente tinha o controle dos executivos estaduais, depois de ter neutralizado um de seus últimos opositores, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, através da federalização da Brigada Militar. Oitenta deputados foram saudar o presidente ?após o cerco do Congresso por tropas federais?, lembra a historiadora, acrescentando que além da chancela da escabrosa desmoralização do Legislativo (já naqueles idos), para os capachos getulistas, ?a ditadura aparecia com um mal menor?.

Com a eclosão da Segunda Guerra, fazendo média com os Estados Unidos sem esconder a simpatia pelo Eixo, Getúlio discursou a bordo do Minas Gerais, a 11 de junho de 1940, um dia depois da entrada da Itália no conflito, descortinando a ambigüidade da política externa brasileira nos anos seguintes. Na mesma semana um jornal de Frankfurt afirmou que Vargas era ?o homem histórico do momento?, e o próprio Mussolini enviou um telegrama pessoal para expressar ?profonda soddesfazione? com a atitude do caudilho.

O mundo deu voltas e Getúlio foi apeado pelas Forças Armadas em 1945. Cinco anos depois voltou nos braços do povo, mas não teve forças para evitar as armadilhas de agosto.

Ivan Schmidt é jornalista.