Milton Dallari

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O turismo aparece como uma boa opção de lazer para quem já deixou o batente e agora curte a merecida aposentadoria. Acontece que nem sempre fica fácil disponibilizar um dinheirinho no final do mês para fazer um passeio. No Brasil, não é preciso ir longe para encontrar lugares aprazíveis e até paradisíacos. Praias, cerrado, circuitos religiosos, turismo de aventura, enfim, há sugestões para todos os gostos e bolsos. É por essa razão que o governo federal quer lançar linhas de crédito para os aposentados viajarem.

Mas é nesse ponto que está a armadilha. Não se deixe seduzir pela propaganda que vem por aí.

A iniciativa do governo se apresenta como interessante pelo lazer que pode proporcionar. O problema é que esse dinheiro emprestado vai ser descontado na conta corrente do ?turista?, como já ocorre com o malfadado crédito consignado. Isso é péssimo para a economia de quem já é obrigado a viver com os parcos recursos oriundos da Previdência Social. Para quem ainda não conhece, o crédito consignado é uma modalidade de empréstimo bancário, a juros mais baixos dos praticados pelo mercado, que depois é ressarcido aos bancos através de descontos mensais no holerite dos aposentados. Corra dele.

Até o momento, não entendi qual é o interesse do governo federal em financiar viagens para aposentados. Ao invés de estimular o crédito consignado, o Ministério do Turismo deveria, isso sim, criar mecanismos para baratear roteiros, estimulando o envolvimento de agências e dos próprios municípios interessados em receber mais turistas, que sempre impulsionam o comércio local. O circuito religioso do Vale do Paraíba, idealizado pelo Sebrae-SP, é uma boa opção para quem vive em São Paulo e até no Rio de Janeiro. Entre a saída da capital e a chegada à Basílica de Nossa Senhora Aparecida, não se gasta mais do que três horas de viagem em rodovia. Ao lado, em Guaratinguetá, o turista também tem acesso à igreja de Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. E logo adiante, em Cachoeira Paulista, estão as acolhedoras instalações da comunidade Canção Nova. Nos arredores de São Paulo, temos ainda o circuito das águas, o circuito das frutas e dezenas de locais históricos.

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Mas prefere-se incentivar a ida do cidadão para outro estado, com pacotes turísticos parcelados entre 6 e 24 vezes, a juros que variam de 1,4% a 2,5% ao mês. Será que o aposentado realmente precisa disso? Uma coisa é oferecer crédito fácil a quem pretende comprar uma geladeira, pagar dívidas ou ajudar filhos em dificuldades. A outra é dar dinheiro para fazer turismo e ainda descontar isso do salário no final do mês. É lógico que o aposentado deve aproveitar ao máximo seus dias de folga, mas sem apertos no orçamento.

Por isso, para viagens mais longas, o ideal é poupar primeiro e gastar depois, fugindo dos juros bancários.

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O estímulo ao turismo local, além disso, é menos cansativo, traz o envolvimento da comunidade e retorno financeiro à própria região. Os mineiros, por exemplo, têm ao seu dispor o belíssimo circuito histórico do interior do estado, enquanto o Rio de Janeiro pode incentivar passeios em seu litoral ou na região serrana. O Rio Grande do Sul, idem. E assim por diante.

O aposentado hoje luta para fazer valer o direito de receber um desconto na passagem de ônibus interestadual, mas a exigência prevista pelo Estatuto do Idoso vem sendo descumprida por várias empresas. Não há razão para acreditar que, agora, o mesmo cidadão será respeitado com pacotes turísticos vantajosos.

Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp. O e-mail para contato é o miltondallari@terra.com.br.