Nenhum dos argumentos utilizados pelo governador Jaime Lerner ou seus auxiliares diretos para indultar a renitência arrogante com que se aplicam ao projeto de alienação da Copel é suficientemente abalizado para convencer a sociedade de que o governo está fazendo um bom negócio. Lerner tem-se esmerado para comparar sua atitude com a de governadores que venderam parte do patrimônio construído com dinheiro público, avocando o benefício de estar realizando uma ação não ideológica, de vez que governadores do PSDB, PFL e até do PT já transferiram empresas estaduais à iniciativa privada.
Antes que o leitor comece a duvidar da sanidade mental do articulista, advirto que o texto é antigo e foi publicado no calor da luta pela manutenção da Copel como patrimônio da sociedade paranaense. Depois de alguns anos se verifica, na prática, que os argumentos usados para justificar a venda da empresa eram todos dissimulados por algum desejo que sentia vergonha de declinar o nome. Assim, fisguei no meu baú de reminiscências esse artigo e o republico em saudação à capacidade mimética do governador de então, que renasceu das cinzas e pelos caminhos nem sempre explicáveis da política viu-se constrangido a perfilhar-se a um candidato – na época – na vanguarda dos que se opunham à venda da empresa de energia. Leia-se o restante do artigo.
Alguém poderia objetar então que insistir na venda da Copel – nesse momento -, não é mesmo uma ação ideológica do governo, mas uma tremenda insanidade de seus dirigentes maiores, a começar pelo personagem que ironicamente abriga-se à sombra do chapéu pensador. E a razão principal, a capitalização de um fundo previdenciário com parte do dinheiro apurado na venda de uma empresa do porte da Copel, só pode soar como uma piada.
A situação guarda em arremedo o mesmo significado das guinadas que a vida dá, ao se contemplar o outrora irresistível playboy e conquistador de estrelas de Hollywood, Jorge Guinle, trabalhando numa agência de viagens onde bola roteiros pessoais para turistas endinheirados. Ou, se desejarem, a socialite, depois de espetar a coleção de taças de cristal Lalique, recepcionar os convidados com sidra servida em copos de requeijão. É possível que digam que sou contra os inativos e pensionistas do Estado, mas usá-los como massa de manobra para atrair simpatias à baboseira que o governo pretende fazer é argumento tão pobre que chega a causar dó. Enquanto se procura engambelar a sociedade com múltiplas razões que dêem sustentação ao projeto entreguista, a verdade nua e crua parece estar atrelada ao acordo que o governo brasileiro fez com o FMI, cuja relação de empresas a serem vendidas deve incluir também a companhia paranaense.
Outra verdade impressionante – que talvez explique coisas que não se dizem em público -, é que não existe em lugar nenhum do planeta uma companhia energética tão eficiente e versátil quanto a Copel, sendo oferecida em leilão. É isso mesmo, e a constatação é de autoridade no assunto: nesse momento não existe empresa de energia superior em qualidade técnica e perspectivas de crescimento como a Copel, sendo vendida, em nenhum lugar do mundo! O governo do Paraná vai passar ao controle da iniciativa privada (dizem que o ungido é um grupo alemão), uma empresa da mais elevada categoria e competitividade, e que continuará a ser competitiva por muitos e muitos anos quaisquer que sejam os desafios que venha a enfrentar. Em qualquer país em que a Copel estivesse localizada, na sua conformação atual, teria o mesmo desempenho eficiente e sua capacidade de competir com a concorrência haveria de ficar patenteada. Contudo, no Paraná, na visão inerrante dos nossos governantes, ela será esmagada.
O Congresso vai analisar a proposta de adiamento do projeto de privatização de empresas federais da área energética, tendo em vista a crise de abastecimento, não havendo razão para excluir a Copel do debate, pelo fato de ser a melhor empresa brasileira do setor. O fórum popular contra a venda da empresa ganha um argumento poderoso. Até o ex-secretário Giovani Gionédis, de quem não se pode retirar o mérito de ter conhecido as entranhas do atual governo, é contra a venda da Copel. Caso Lerner encontre tempo entre uma e outra manifestação contrária da população, seria bom que nos explicasse também isto.
Ao fim e ao cabo, ainda se pode perguntar: teria valido a pena vender a Copel?
Ivan Schmidt é jornalista.