Há quatro anos, o futebol brasileiro foi manchado por mais um escândalo. Naquela oportunidade, o árbitro Edílson Pereira de Carvalho, um dos poucos do País no quadro oficial da Federação Internacional de Futebol (Fifa), foi flagrado no meio de um esquema de apostas clandestinas pela internet, do qual participava “ajeitando” os resultados das partidas que comandava. Onze partidas do campeonato brasileiro daquele ano tiveram seus resultados anulados pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), e a definição da competição foi brutalmente alterada, com o Corinthians levando vantagem ante o Internacional.
Pois bem. O tempo passou, e hoje duas das principais competições do futebol brasileiro (os campeonatos nacionais da primeira e da segunda divisão) são patrocinadas por um site de apostas internacional. E não é apenas um patrocínio discreto. Assista a qualquer um dos sete jogos de hoje na chamada série A – inclusive o marcado para Curitiba, entre Coritiba e Flamengo, às 16h, no Estádio Major Antônio Couto Pereira – e veja, como placa de publicidade central, no triplo do tamanho de uma placa habitual, o site de apostas.
Não é só isso. O mesmo site patrocina ostensivamente um canal de TV a cabo de programação exclusivamente esportiva, e tentou nos últimos dias colocar-se como “patrocinador máster” (quer dizer, o principal anunciante) de um dos programas esportivos de maior audiência no Paraná – a proposta foi recusada pela emissora. É uma tentativa de estender os “tentáculos” pelo País, tal como fazem os sites de jogos online de pôquer, que abundam nas emissoras fechadas.
Até onde se sabe, a empresa que controla o site de apostas é idônea. Muitos brasileiros já participam, apostam (e ganham e perdem, como é normal) e não têm reclamações. Fora do Brasil, é ainda mais comum, com alguns clubes chegando a estamparem sites de apostas em suas camisas, como o Sevilla, da Espanha, time em que atuam o artilheiro da seleção brasileira, Luís Fabiano, e o ex-lateral do Coritiba, Adriano. E já estiveram no Milan, o grande time italiano, uma das grandes potências do futebol mundial.
Mas como ter a certeza que a competição não corre riscos de manipulação? Temos um exemplo cruel no Brasil, com a desgraça de uma das instituições mais populares ligadas ao futebol, a Loteria Esportiva. De simples projeto da Caixa Econômica Federal, no início dos anos 70s, a loteria virou um fenômeno de popularidade, unindo a sorte com o esporte. Mas, em 1982, uma série de denúncias publicadas pela revista Placar acabou com a credibilidade do jogo – mais de cem pessoas foram denunciadas, algumas delas com provas irrefutáveis de participação no “arranjo” de resultados, as chamadas “zebras” que tiravam os pequenos apostadores do jogo e faziam com que as mesmas pessoas ganhassem vultosos prêmios, que serviam para movimentar ainda mais o esquema.
Temos, e precisamos ter, um pé atrás com essa história. O futebol brasileiro não pode ficar correndo o risco de ficar novamente maculado com escândalos. Somos praticamente reféns de uma série de fatos que afastaram o público dos estádios e distanciaram boa parte dos “cartolas” da opinião pública. Reféns de esquemas de arbitragem, de dinheiro que some, de interferências irregulares em negociações, de contratos intencionalmente mal formulados, de falta de qualidade, de tentar compensar tudo isso com ingressos caros. Não precisamos correr mais um, e ainda deliberadamente. Mas será que isto preocupa os donos do poder do futebol?