Aposta sensata

O governo está pensando em estender o raio de ação de seus instrumentos de apoio na direção dos fornecedores de equipamentos para o importante setor sucroalcooleiro, a fim de estancar a proliferação dos problemas econômicos já desenhados no horizonte próximo dessa categoria de empresários industriais. Além da aposta sensata no futuro do etanol como alternativa viável para a substituição gradativa de combustíveis derivados do petróleo, o governo mostra-se convicto de que a disponibilidade de prestar ajuda num momento de instabilidade, como o atual, é uma das evidências de como está sendo conduzido o projeto de desenvolvimento nacional.

Nesse sentido, mais uma vez, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) está sendo convocado a abrir uma linha especial de crédito aos fabricantes e fornecedores de equipamentos para as usinas produtoras de álcool e açúcar, segundo declarações feitas pelo ministro Miguel Jorge, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, durante a 1.ª Conferência Internacional sobre Biocombustíveis que está sendo realizada em São Paulo. Os recursos seriam da ordem de R$ 850 milhões numa linha direta de financiamento às indústrias supridoras de equipamentos de utilização obrigatória no setor sucroalcooleiro, que também está pleiteando a liberação de recursos aprovados anteriormente para a execução de projetos ainda paralisados.

A medida, segundo o ministro Miguel Jorge, vai dissipar parte das dificuldades trazidas pela crise mundial na obtenção de crédito, cujo mercado se contraiu fazendo com que inúmeros usineiros não conseguissem dinheiro para tocar os empreendimentos que haviam planejado. Segundo fontes oficiais da indústria de álcool e açúcar, muitas empresas já estão se atrasando no pagamento de compromissos, levando à inadimplência cerca de 30% do setor.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, falando na oportunidade como representante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, fez uma colocação que diferiu em gênero e número daquela anunciada pelo ministro Miguel Jorge. Espera-se que também não tenha tido o efeito de uma ducha de água fria sobre as expectativas dos empresários, mas a ministra advertiu em alto e bom som que o governo não pretende transformar a ajuda financeira num pacote específico para os usineiros em dificuldades. Ao contrário, Dilma lembrou que o setor já teria sido contemplado no pacote de R$ 10 bilhões lançado pelo BNDES, no início do mês, com o objetivo de elevar os níveis de liquidez de grandes empresas. A afirmação teve entre os ouvintes os ministros Miguel Jorge, Edison Lobão (Minas e Energia) e Reinhold Stephanes (Agricultura). Dilma frisou, ainda, que a formatação do referido pacote do BNDES considerou como uma de suas referências exatamente a crise do setor sucroalcooleiro.

O presidente da União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica), Marcos Jank, reconheceu que os recursos prometidos pelo governo estão fluindo com alguma rapidez, embora as necessidades reais dos usineiros continuem a crescer. O setor está vivendo um período de adversidades determinadas pela entressafra e investimentos elevados, fatores que sempre alimentam a idéia da concentração, segundo Jank. Para o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, muitos empresários optaram pela suspensão dos investimentos, mais interessados em descobrir as boas oportunidades de compras que logo deverão surgir.

Dilma acenou com a probabilidade do surgimento de negócios para o setor, a partir do interesse demonstrado por grupos empresariais dos Estados Unidos e Europa em diversificar os investimentos em áreas como a produção de combustíveis verdes, pensando inclusive na recuperação da indústria automobilística norte-americana. De concreto, a ministra prometeu que em dezembro estará pronto o zoneamento ecológico do etanol, visando impedir o cultivo de cana-de-açúcar em locais inadequados como a Amazônia e o Pantanal.

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