Cansado de ver as coisas se apequenarem ao redor, Zaratustra, que tanto pregava um porvir venturoso, não se conteve e, antes de voltar à sua montanha para iniciar um discurso sobre a virtude amesquinhadora, exclamou, tristonho: ?Tudo tornou-se menor?. Quando o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Furlan, refere-se à sensação de desânimo que toma conta do País, à semelhança do profeta nietzschiano, estampa visivelmente decepção com a falta de cenários e objetivos por parte do governo que integra e do qual se esperava o maior acervo de realizações e mudanças da história do País no ciclo da redemocratização. A amargura do ministro sinaliza um País que não sai do lugar. Fosse em outro momento, a decisão do Brasil de liquidar a fatura com o FMI, antecipando o pagamento de US$ 15,5 bilhões de dólares e, assim, fechando um ciclo de dependência que, por décadas, inspirou os bordões das esquerdas latino-americanas, seria comemorada com foguetório e algazarra cívica. Mas a paralisia do ano que chega ao final generaliza o sentimento de que, pelo menos na esfera político-institucional, o País tornou-se menor.
O que 2005 significou para o Brasil? A resposta sai fácil: um ano de muito barulho e pouca ação. Ou, para continuar nas metáforas do mais famoso personagem de Nietzsche, um tempo em que os atores tornaram-se mais pequenos e de virtudes pouco invejadas. A começar pelo Executivo, o que se viu foi uma administração titubeando entre sacolões assistencialistas, varejão político, gestão fragmentada em feudos, ortodoxia da política econômica e verborragia palanqueira do aparelho vocabular presidencial. O que sobressaiu na administração federal se não a mão de ferro pallociana que, se de um lado, ganhou repetidos encômios desta entidade cada vez mais sacralizada e onipotente chamada mercado, de outro, propiciou uma bateria de pesadas críticas, a partir da constatação de que a gestão monetária impediu investimentos, paralisou a gestão e emperrou o crescimento? O que resta da cara social de um governo comandado pelo mais simbólico ícone das esquerdas brasileiras, um homem atormentado ao ver seu partido atolado na lama da corrupção e que ainda se dá ao luxo de atacar publicamente a própria alma do governo, que é a política econômica?
A articulação política se esgarça, à medida que Lula tenta recompor os casos, exigir dos ministros que gastem mais e abram o balcão para o atendimento franciscano. Saltando aqui e ali, o governo se esquiva do bombardeio que maltrata espaços da administração, quadros da gestão e correligionários. Mas não consegue evitar o distanciamento social. As classes médias foram as primeiras a dar o fora. Agora, são entidades não governamentais que, em nota pública, atacam o governo, acusando-o de trair os movimentos de base. Eis aí parte da resposta para o definhamento dos índices de Lula nas pesquisas.
Se a administração federal patina, o Legislativo desatina. Pois só mesmo a ausência da razão pode explicar o tempo de perdidas esperanças que foi 2005. O expediente do Congresso foi usado quase todo para ambientar as CPIs, cujos resultados deixam a desejar. Não ocorreram as renúncias em bloco e a penca de cassações não passou de ilusão. Os pífios resultados – duas cassações, Roberto Jefferson e José Dirceu, e poucas renúncias – aumentam a descrença social no corpo parlamentar e a impressão de que o espírito severino de nivelar as coisas por baixo (tão bem incorporado pelo ex-presidente Severino Cavalcanti, um dos renunciantes), continua a inspirar o parlamento. Que vergonha. A aprovação do Orçamento da União, uma das tarefas mais nobres do parlamento, ficou para 2006, implicando convocação extraordinária do Congresso e um gasto de R$ 100 milhões. A agenda parlamentar ficou recheada de páginas em branco. Perdeu-se a oportunidade de aprovar uma reforma política em profundidade para moralizar costumes e padrões. Mais uma vez, o Congresso empurrará a crise com a barriga.
Na esfera do Judiciário, as luzes mais fortes apontam para a ribalta do Supremo Tribunal Federal, onde a trombeta tocada pelo presidente Nelson Jobim esteve muito afinada a outras orquestras, dando margem a uma vigorosa crítica sobre a postura política (no sentido partidário, não no sentido aristotélico de missão a serviço da polis) do presidente da mais alta corte judiciária do País. Péssimo para a imagem pessoal do magistrado e de efeito negativo para a imagem do poder Judiciário como um todo. A grandeza que faltou aos Poderes da República, no ano quase perdido de 2005, sobrou na imprensa. Não fosse a investigação própria e persistente dos meios de comunicação, seguramente a crise estaria escondida nos dutos da corrupção. A ação da imprensa lidera os atos positivos do ano.
O caldo da inação governamental e o insosso menu parlamentar provocam engulhos no estômago social e explicam o fastio em relação a qualquer acepipe que provenha da cozinha política. Não há motivo para político se vestir de Papai Noel. Lula fez isso e ficou ridículo.
Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP e consultor político.