Agora é oficial. Os números finalmente consolidados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que em dezembro passado 654.946 postos de trabalho foram fechados em todo o País. Esse é o pior resultado dos últimos dez anos, provando que estavam redondamente enganados os que fizeram circular a falaciosa interpretação de que, no Brasil, a crise sequer seria observada e, se por acaso chegasse, não passaria de reles “marolinha”.
Cotejando os índices de demissões de trabalhadores nas economias industrializadas, no pico da crise financeira (novembro e dezembro) com o relatório do Caged, chega-se à conclusão que elas sofreram uma leve ressaca. Mesmo que seja temerário afirmar que no Brasil os efeitos da crise sobre o mercado de trabalho assumiram a proporção de um tsunami, pode-se perceber com clareza que o fenômeno cíclico alcançou a potência de um autêntico furacão.
Nos Estados Unidos, o epicentro da crise, 584 mil vagas foram suprimidas, o sexto maior corte em 59 anos. No país com a maior taxa de desemprego na Europa, a Espanha, 193 mil empregados foram despedidos, ao passo que na economia mais desenvolvida do referido continente (Alemanha), apenas 114 mil vagas foram fechadas. Japão e México também demitiram trabalhadores, cada qual com aproximadamente 160 mil, todavia acusando valores bastante distanciados da surpreendente realidade brasileira.
Decerto os dados do Caged deixaram boquiabertas as autoridades governamentais, dentre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que não raras vezes procuraram assegurar, com a utilização de versões edulcoradas, o prolongamento duma fase bonançosa para os trabalhadores brasileiros, hoje, infelizmente, desmentida pela rescisão de alarmante quantidade de contratos com carteira assinada.
O quadro tende a piorar até o encerramento do primeiro trimestre, com base na estimativa de vários analistas do mercado de trabalho, tendo em vista a projeção de que a cada mês, cerca de 100 mil empregados formais venham a ser dispensados. Totalizadas as demissões dos cinco meses decorridos desde novembro, quando a “marolinha” ganhou a intensidade duma gigantesca procela, se não houver pessimismo exagerado de parte dos analistas, o País voltará a conviver com uma das mazelas socioeconômicas mais degradantes dos anos recentes, arcando com o desemprego súbito de quase um milhão de pessoas.
É originária da indústria de transformação a maior parcela de demissões (273.240), com impacto devastador sobre os setores ligados à produção de alimentos e bebidas, que mandaram para casa apenas no último mês do ano passado, exatos 109.697 trabalhadores. As dispensas ocorreram em maior número no estado de São Paulo, embora o relatório final do Caged mostre os reflexos da crise financeira em todas as regiões, com ênfase para Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Consultores ouvidos pelos jornais são unânimes em opinar que cabe ao governo agir com prontidão a fim de evitar o desembarque de uma situação ainda mais probante, e dentre as medidas imediatas estão o corte de juros, aumento dos investimentos públicos em projetos de infraestrutura e um pacote efetivo de medidas de estímulo aos setores mais atingidos.
Aliás, o próprio ministro Carlos Lupi admitiu que o governo deverá anunciar, no prazo mais curto possível, a relação de medidas preferencialmente direcionadas aos setores da indústria e da construção civil, nos quais foram mais expressivos os contingentes de operários demitidos. Lupi não quis adiantar, entretanto, quais são as medidas de estímulo que estão sendo analisadas pelo núcleo responsável pelo combate à crise e nem o momento do anúncio. Todos sabem, porém, que não é hora de ficar com os braços cruzados.