Algo de novo no movimento sindical

Nos últimos anos tornou-se comum ouvir que o movimento sindical perdeu razão de existir. A evidência de seu enfraquecimento seria sentida pela falta de representatividade de suas principais lideranças. Muitas delas acabaram se voltando a atividades político-partidárias e, portanto, distantes das tarefas e responsabilidades de interesse profissional imediatas dos trabalhadores.

De fato, a evolução do mundo moderno dificultou a vida das lideranças sindicais. Os altos índices de desemprego e de informalidade, a invasão de importados produzidos com mão-de-obra aviltada de países como China, Índia e Vietnã, a globalização que aumenta a mobilidade do trabalho e a crescente sofisticação dos métodos de produção poupadores de mão-de-obra vêm enfraquecendo os sindicatos laborais em todo o mundo.

Não obstante, parece haver algo de novo no movimento sindical brasileiro. Algo que surge a partir de uma profunda reflexão sobre os problemas dos trabalhadores brasileiros, suas aspirações, seus obstáculos e suas potencialidades.

Estou me referindo à UGT -União Geral dos Trabalhadores, a nova entidade sindical que surge pela fusão das centrais sindicais Social Democracia Sindical (SDS), Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e Central Autônoma dos Trabalhadores (CAT) e pela incorporação de sindicatos importantes como o Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

Seu presidente, Ricardo Patah, abre novos caminhos e finca estacas que prenunciam a maior participação dos trabalhadores em geral, e dos comerciários em particular, na definição dos rumos e destinos do Brasil, através de uma nova estratégia de ação, focada no homem, em suas necessidades imediatas, e em seus projetos de vida.

Com base em abrangente pesquisa realizada pelo Die-ese especialmente para o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, voltada para saber como a realidade objetiva do País influencia o trabalhador e para entender suas dificuldades, aspirações e condições de vida, o movimento sindical está sendo orientado no sentido de flexionar seus músculos para influenciar os destinos políticos, econômicos, ambientais e sociais do Brasil. Este novo sindicalismo, que vai além da representação e do suprimento das necessidades imediatas dos trabalhadores foi incorporado, a partir dessa iniciativa do Sindicato dos Comerciários, ao ideário e ao discurso da UGT.

A modernidade e a oportunidade desta nova visão sindical ficam evidentes. Questões ambientais, de exclusão social, de discriminação salarial contra negros e mulheres, de informalidade, de baixos salários, de frustração na busca de melhor educação e treinamento, e de longas jornadas de trabalho mostram a necessidade inequívoca de atuar muito além das paredes internas dos sindicatos.

Há que ir além. Com isenção e sem o arrasto das paixões partidárias, há que buscar maior inserção no processo de tomada das grandes decisões nacionais. Esta é a novidade que surge no horizonte do sindicalismo brasileiro.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google