Os dirigentes da maior estatal brasileira, a Petrobras, a julgar pelos comentários do diretor financeiro, Almir Barbassa, não têm motivos para duvidar da boa saúde da empresa, mesmo com o anúncio oficial da queda de 20% no lucro líquido no primeiro trimestre: o lucro caiu dos R$ 7,2 bilhões contabilizados em igual período do ano passado para os atuais R$ 5,8 bilhões. A explicação, sem maiores rodeios, foi que a empresa viu-se forçada a pagar juros maiores sobre a dívida, além de sofrer os efeitos da política cambial. De quebra, ainda houve influência do forte recuo do preço do petróleo, que incidiu sobre o valor médio de comercialização do produto no mercado interno, onde se verificou uma queda de 63%. Poderia ser pior.
Não obstante, os analistas decerto vão investigar todos os pormenores da prestação de contas da Petrobras, que no mesmo período também teve queda de 9% na receita operacional líquida de R$ 42,6 bilhões. As despesas operacionais aumentaram na ordem de 16% na comparação com o primeiro trimestre de 2008 (R$ 6,6 bilhões), e a despesa financeira líquida deu um salto gigantesco de 260%, passando para R$ 849 milhões. O lucro operacional antes do resultado financeiro e da equivalência patrimonial mais depreciação e amortização fechou em R$ 13,4 bilhões nos primeiros três meses do ano, 5% menos que o valor apurado no mesmo período do ano passado.
Razões contábeis a parte, o mercado deverá aguardar mais alguns dias pelas análises que certamente vão surgir, para então emitir uma avaliação mais precisa sobre a diminuição do lucro da Petrobras e dizer se concorda ou não com o diretor Almir Barbassa, que considerou “confortável” o volume do trimestre. Barbassa, entretanto, admitiu que a empresa não poderá dispensar a captação de dinheiro no mercado, tendo em vista que os investimentos previstos são elevados.
A estatal, segundo o diretor financeiro, encerrou o primeiro trimestre de 2009 com R$ 19,5 bilhões em caixa, valor 23% maior que o existente no ano passado. Essa disponibilidade será acrescida em junho pelo recebimento de uma parcela dos US$ 6,5 bilhões do empréstimo ponte concedido à estatal por um grupo de bancos e que será substituído por bônus no mercado internacional. Há ainda a garantia do aporte de R$ 25 bilhões, a ocorrer ainda no mês de maio, quantia relativa ao financiamento obtido junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Quanto à produção propriamente dita, Almir Barbassa destacou os índices positivos do crescimento anual da produção de petróleo e gás natural (7%), ou seja, de 2,120 milhões de barris de óleo equivalente por dia no primeiro trimestre de 2008 para 2,261 milhões de barris diários durante janeiro, fevereiro e março últimos. Barbassa enfatizou também que as perspectivas para a receita da empresa são favoráveis, pois a cada dólar a mais no preço médio do barril ao longo do ano, considerado o preço de referência de US$ 37, a Petrobras contará com o benefício de US$ 500 milhões no caixa, contribuindo para o equacionamento dos planos de investimento da empresa no exercício atual. “Temos um ano tranquilo em termos de financiamento. O preço de referência é de US$ 37 e hoje já está em US$ 57”, esclareceu.
A empresa negou os rumores de manobras contábeis a fim de recolher menos impostos. O presidente José Sergio Gabrielli afiançou que a empresa mudou, no meio do ano passado, o regime tributário, gerando um crédito aproximado de R$ 2,14 bilhões na Receita Federal. Em dezembro veio mais um crédito de R$ 1,83 bilhão, propiciando à estatal a utilização desses recursos para a quitação de tributos, incluindo a Cide (o imposto sobre combustíveis), no valor de R$ 1 bilhão.
A Petrobras é responsável pelo recolhimento de 95% desse tributo específico arrecadado pela Receita e repassado às administrações estaduais. A mudança do regime tributário, garante a direção da empresa, foi feita de acordo com a legislação em vigor e dentro dos prazos regulamentares. A Receita Federal desconfia que não é bem assim.