Alerta na indústria

Os resultados finais de uma pesquisa realizada pela KPMG, divulgados ontem pela agência de notícias BBC Brasil, confirmam que a crise econômica global provocou acentuada queda no setor industrial brasileiro, comprometendo os índices de avanço esperados para o exercício de 2009. O levantamento contou com a colaboração da empresa de pesquisas Markit, e as informações coletadas indicam que 22% das empresas industriais do País trabalham com a variável da redução de produção esse ano. O percentual que tinha a mesma opinião pessimista há seis meses, quando a investigação anterior foi feita, não ultrapassou 3% dos entrevistados.

Os pesquisadores também ouviram na aferição, além de executivos de grupos industriais brasileiros, a opinião dos dirigentes de corporações relevantes do setor nos demais componentes, que ao lado do Brasil, formam a sigla Brics. Os outros países são Rússia, Índia e China e, ao todo, foram entrevistados 1,8 mil representantes da indústria dos quatro países com o melhor desempenho à frente do bloco das chamadas economias emergentes.

Um dos tópicos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a mudança radical das expectativas dos empresários ouvidos quanto ao desempenho no presente exercício, que em seis meses passaram do otimismo sem reservas para um compasso de espera preocupante, quando não abertamente negativo. A queda do otimismo no Brasil, segundo a pesquisa, foi mais acentuada que nas demais economias emergentes, tendo em vista a escala entre menos 100 (pessimismo máximo) e mais 100 (otimismo máximo). A pesquisa mostrou que a confiança declarada pelos empresários brasileiros despencou de +65,3 há seis meses para -3 na última pesquisa.

Na China, por exemplo, o índice de confiança na atividade industrial caiu de -36,3 para +2,6, ao passo que entre empresários indianos houve notável retrocesso quanto à queda de confiança de +62,9 para -1,6. No contexto da sigla Brics, o otimismo do setor industrial em relação ao ritmo da economia em 2009 permanece relativamente aquecido na Rússia, com um índice de confiança de +21,2, embora a pesquisa atual tenha revelado um nível bastante inferior aos +63,2 verificados na investigação anterior. No panorama geral do Brics, o índice de confiança das empresas industriais em seu próprio desempenho ficou em +3,5, caracterizando apenas um débil otimismo em comparação com a média de +47 apurada há seis meses.

A KPMG analisou criteriosamente as informações disponibilizadas pela pesquisa e concluiu que o resultado final é um indicativo real da vulnerabilidade dos mercados emergentes num cenário de crise econômica global, cujo reflexo imediato é o encolhimento da demanda por produtos importados.

Um dado sobremaneira emblemático da situação, divulgado ontem pelos jornais, reside no déficit de US$ 14,4 bilhões da balança comercial da indústria de transformação no ano passado. Esse foi o primeiro resultado negativo do nosso comércio exterior desde 2001. No exercício referente a 2005 o setor industrial chegou a registrar um superávit recorde de US$ 23 bilhões, segundo números da Secretaria de Desenvolvimento da Produção (SDP), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Mesmo assim é prudente ressalvar que o déficit da balança comercial da indústria não foi causado pela crise internacional, pois os resultados dos negócios com clientes estrangeiros já vinham declinando desde o início do ano passado. Contudo, se a turbulência registrada a partir de outubro ainda não agravou o cenário das exportações oriundas da indústria de transformação, a percepção momentânea dos principais dirigentes do setor, sem exagerar nas tintas da “fracassomania”, sintomático neologismo incorporado ao idioma pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não lhes faculta ângulo propício para vislumbrar um horizonte menos carregado de nuvens sombrias.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google