Alerta constante

O ano de 2009 ficará marcado no Paraná por conta do terrível acidente que aconteceu no mês passado, envolvendo o ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho (PSB) e que matou os jovens Carlos Murilo e Gilmar Rafael. O impacto midiático foi muito grande, a imprensa brasileira acompanhou o caso com sofreguidão (e segue acompanhando, pois uma equipe da TV Globo está preparando material em Curitiba para o programa Profissão Repórter, comandado pelo jornalista Caco Barcellos). E, talvez por isso, o caso seguiu da forma que seguiu – pressão da sociedade, crise política, renúncia de Carli Filho e inquérito em pleno andamento.

Mas há questões ainda não explicadas. Primeiro, porque o ex-deputado ficou bom, piorou, melhorou, piorou de novo e, quando ninguém imaginava, teve alta do hospital e se “isolou” em local incerto e não sabido? E os exames de sangue do político? Hospitais, bombeiros e policiais – quem deles têm razão? Onde estão as testemunhas? As imagens do estacionamento, do restaurante e do posto de gasolina foram vistas na íntegra?

Muitas destas perguntas podem ser respondidas com a perícia da Polícia Civil. Sobre esta, por razões óbvias (o processo corre em segredo de Justiça), temos poucas informações, todas elas captadas pelos jornalistas que acompanham o caso. Mas, na última sexta-feira, o advogado Elias Mattar Assad, em nome de Gilmar e Cristiane Yared, pais do jovem Gilmar Rafael, apresentou uma perícia paralela que colocou suspeitas no encaminhamento das investigações.

Na edição de sábado de O Estado, a repórter Mara Andrich contou esta história: “A perícia técnica apontou que há indícios de que imagens da câmera do posto de combustíveis localizado no local da ocorrência foram adulteradas. A perícia também concluiu que o Passat alemão do parlamentar estava numa velocidade de 191,52 quilômetros por hora no momento do acidente. (…) ‘Temos uma série de indagações para serem respondidas. A questão do hospital que está sendo investigado, os laudos do sangue que apresentaram dúvidas, os radares, pessoas importantes do Paraná que conversaram naquela madrugada. Mas tudo isso pode ser apurado numa CPI’, afirmou Assad. (…) A perícia paralela deverá ser encaminhada pelo advogado à Polícia Civil e ao Ministério Público. O proprietário do posto onde estavam instaladas as câmeras foi procurado pela reportagem, mas não foi encontrado”.

É possível afirmar, com grande dose de má vontade, que tal perícia pode ter sido encaminhada para incriminar ainda mais o ex-deputado Carli Filho. Mas, convenhamos, fazer isso serviria apenas para facilitar a vida do político – não teria o menor sentido para a família Yared, muito menos para Elias Assad, advogado experiente e que deve saber tudo que está fazendo.

Pensando assim, a perícia paralela escancara a – no mínimo – imprudência de Carli Filho no acidente que matou os dois jovens. A partir daí, todas as decorrências precisam ser averiguadas, começando com o fato de um político, na teoria um cidadão responsável, estar dirigindo apesar de ter a carteira de habilitação suspensa por excesso de multas. Depois, a questão do consumo de bebida. Após, a velocidade do carro.

Mas isso já foi amplamente discutido – pela polícia, pelo Ministério Público e pela imprensa. E todos os indícios levam para a culpa do ex-deputado. Este, ouvido na semana passada, disse que não lembra de absolutamente nada. O que seria um possível escapismo é na verdade compreensível para quem sofreu um choque forte. Como, por exemplo, em um acidente de carro em altíssima velocidade, talvez superior a 180 quilômetros por hora.

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