Ivan Schmidt

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Duas comemorações tocaram os curitibanos esta semana: os 50 anos da Boca Maldita e os 30 anos do filme Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back, blumenauense que adotou dupla cidadania ao radicar-se em Curitiba (depois mudou para o Rio de Janeiro). Dois eventos dignos de inflar o ego dos que se ufanam da sua terra.

Falando francamente, não posso enfunar demais a vela, pois também migrei do território mais ao sul, retornando de um interregno de mais de dez anos na Paulicéia ainda não desvairada. Desembarquei com armas e bagagens (mulher e filha) na velha rodoviária do Guadalupe, no início de 1974. No dia 1.º de maio do mesmo ano, pelos préstimos de meu amigo Elon Garcia e a confiança de Mussa José Assis, ingressei no quadro de repórteres setoriais deste bravo matutino.

Por que estou abrindo o baú de guardados? Ora, não por outros motivos senão ter conhecido os jornalistas Adherbal Fortes de Sá e Oscar Milton Volpini. O primeiro, suposto criador do dístico que tornou universal a fama da menor avenida do mundo, a Luiz Xavier, também conhecida por 15 de Novembro, ou valha-nos Deus, Rua das Flores. E o segundo, grande Volpini, roteirista de filmes do Sylvio, dentre eles A Guerra dos Pelados, baseado no episódio do Contestado, guerra de verdade movida pelas forças regulares contra camponeses pobres imantados pelo messianismo do monge José Maria Boaventura e liderados, na fase final, pelo caboclo Adeodato de Ramos, o Liodato, autêntico precursor de Che Guevara, também ele picado de balas por um policial truculento, ao tentar se evadir pelo portão da frente do quartel da Polícia Militar, em Florianópolis, onde cumpria sentença judicial. Mas essa é outra história.

O filme comemorado, que também teve Volpini como roteirista, conta a saga de nazistas refugiados no Paraná ou Santa Catarina, ao que parece antes da explosão da Segunda Guerra. Todos gravitando em torno do Hotel Flórida, anagrama de Adolf Hitler, aos quais se agregam personagens locais, dentre eles um caricato galinha-verde e o negro Repo, vivido de forma magistral por outro amigo querido, já falecido, Narciso Assumpção. Também aí Sylvio mostrou a ambivalência catarino-paranaense, pois os interiores do Flórida eram os do aristocrático Hotel Jonscher. E ao escolher o sítio adequado para o estabelecimento, num nostálgico momento do filme, fez locações externas naquele belíssimo vale vislumbrado do alto da estrada de Maçaranduba, chegando a Blumenau pelo lado norte.

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Enfim, tanto os 50 anos da Boca como os 30 do filme de Sylvio mereceram destaque no Caderno 2 de O Estado de S. Paulo, na edição da última quarta-feira, em artigo do romancista Cristóvão Tezza e matéria do crítico de cinema Luiz Carlos Merten, que classificou o filme como um clássico nacional. E lembrou nada menos que Os deuses malditos, de Luchino Visconti, O conformista, de Bernardo Bertolucci, e O porteiro da noite, de Liliana Cavani, marcos do ciclo do cinema italiano sobre a mesma temática.

Tezza, que conheceu a Boca em fase mais retumbante, acendeu uma luz e sugeriu o tema para instigante projeto cultural: a história do afamado ponto e seus personagens (só o Esmaga daria um livro inteiro) e por aí afora. As fontes estão disponíveis e quase todos os dias marcam presença: Luiz Geraldo e Carlos Mazza, Milton Ivan Heller, Walmor Marcelino, Chacon Júnior e muitíssimos outros boqueiros ilustres.

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Para concluir, uma memória pessoal de Anfrísio Siqueira, presidente dinástico da instituição (foi substituído pelo filho Igor), quem sabe por esse pormenor, de longe, a mais perfeita democracia desse vasto mundo, com alguma remota similitude apenas no Império Britânico. A época era a mesma de agora, o jantar comemorativo, novos cavaleiros e comendadores, coisas do tipo. Ligo pra sua casa a fim de marcar entrevista para a TV Iguaçu, onde eu era chefe de reportagem. Ainda não eram nove da matina. Uma voz feminina informa:

– O Anfrísio já está na Boca…

Presidente é isso aí!

Ivan Schmidt é jornalista.