Água e geopolítica

A escassez de água já é uma realidade mundial. A água doce, vital para a vida humana, é real problema para a vida humana, é real problema para regiões e países em diferentes partes do globo terrestre. É uma questão que se agravará nas próximas décadas. Guerras e conflitos regionalizados ocorrerão para garantir o acesso a esse bem precioso. A ?commodity água? terá um valor econômico e estratégico muito semelhante ao petróleo nos dias atuais.

No planejamento geopolítico das potências econômicas mundiais, a ?guerra da água? é um cenário permanentemente atualizado. O conflito será inevitável. O Brasil e a América do Sul estão no epicentro dessa crise de abastecimento que ocorrerá em futuro não longínquo. Ao aprovar uma lei das águas em 1997, o governo brasileiro dotou-nos de um Plano Nacional de Recursos Hídricos do maior valor estratégico, ao assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água.

Não é o bastante. Por quê? Ocorre que o Brasil detém 20% da água doce do mundo, um privilégio quando se sabe que somente 3% da água do planeta é aproveitável. E de acordo com a FAO, organismo da ONU, a América do Sul dispõe do maior potencial de recursos hídricos do mundo. O volume dos rios, lagos e pântanos confere essa condição de incomparável riqueza regional. São as reservas hídricas de superfície. As reservas subterrâneas brasileiras e sul-americanas constituem outra fronteira de riqueza estratégica de enorme valor econômico.

É o caso concreto do Aqüífero Guarani, um ?mar subterrâneo? de água doce que se estende por quatro países da América do Sul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Transfronteiriço estima-se que a sua área total atinja 1,2 milhões de quilômetros quadrados. Na Argentina, sua extensão é de 225 mil quilômetros; no Paraguai, 71 mil; no Uruguai, 58 mil, e no Brasil, 840 mil quilômetros quadrados. A parte brasileira corresponde a 70% do reservatório, incluindo oito estados e equivale a uma área somada de países como a Inglaterra, Espanha e França.

O Aqüífero Guarani é um conjunto de rochas arenosas localizadas abaixo do nível do solo com água em seus poros e fendas. É uma formação geológica com aproximadamente 200 milhões de anos. Estudos do Banco Mundial estimam a existência de mais de 40 mil quilômetros quadrados de água, sendo 90% potável. Fazendo uma projeção de consumo ?per capita?, diário, de 300 litros de água, atenderia 360 milhões de pessoas de maneira sustentável. E mais: em um período de 100 anos, apenas 10% do total das reservas de água terão sido consumidas.

São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso têm posição privilegiada na geografia desse ?mar subterrâneo? de água potável que se renova permanentemente com a água de superfície decorrente das chuvas que se infiltra e se deposita nas áreas subterrâneas. A inexistência de mecanismo legal para a utilização racional dessas reservas subterrâneas vem motivando organismos internacionais a discutir a regulamentação, exploração e preservação de reservatórios, onde o Aqüífero Guarani é o mais importante. A ONU vem coordenando esses estudos. No âmbito do Mercosul, busca-se um marco regulatório.

No subterrâneo dos quatro países criadores do Mercosul encontra-se essa colossal riqueza, que poderá ser uma alavanca para o desenvolvimento da região. A área chamada de tríplice fronteira, que integra Brasil, Argentina e Paraguai, é o coração do Aqüífero Guarani. Infelizmente o noticiário nacional e internacional induz a caracterizar a região como filial de terroristas. O prefeito de Foz do Iguaçu, o engenheiro Paulo Mac Donald, vem desafiando os acusadores multinacionais a provar o falacioso argumento, sem êxito. Há dias, a Câmara dos Deputados dos EUA aprovou moção exigindo que George Bush envie uma força-tarefa para atuar contra o terrorismo na região.

Nâo sendo adepto de teorias conspiratórias, mas conhecendo a história do México e da Colômbia, aqui vai um alerta ao governo brasileiro: não aceite essa interferência imperial que agride a soberania nacional. No México, a guerra do Texas serviu para anexar 2,4 milhões de quilômetros quadrados. Na Colômbia, o atual Panamá foi perdido para a construção do canal.

Nesse século 21, o Aqüífero Guarani não seria um objetivo geopolítico imperial para garantir o abastecimento futuro de água potável, diante da escassez mundial que deve se agravar?

A resposta deve ser dada pelo governo brasileiro.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Foi deputado federal (1978-1991).

É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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