Agenda prioritária

A redução das metas de emissão de gases do efeito estufa é um tema que desperta interesse não apenas no governo central, mas em vistosa amostra de empresas engajadas nas negociações sobre as mudanças climáticas. Aliás, essa será a direção dos trabalhos preliminares do grupo de negociadores formado em meados da semana, em São Paulo, com o objetivo de subsidiar a representação do País na conferência especial de Copenhague, em dezembro próximo. Adiantou-se que dentre as linhas mais destacadas da agenda a ser discutida, a prioridade é a fixação de metas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa.

O grupo de trabalho vai consolidar as propostas do governo brasileiro e, ainda, avaliar as principais sugestões apresentadas pelas empresas com a finalidade de diminuir a carga de gases poluentes jogados na atmosfera. A comissão terá 30 dias para alinhavar o documento a ser defendido na conferência a Copenhague, apresentando-o em setembro para a análise prévia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e assessores diretos do setor. As principais empresas convocadas a participar do esforço são a Suzano Papel e Celulose, Light, Rhodia, Shell, Arcelor Mittal, Klabin, Ambev, AES e Brenco, convite estendido também para instituições como a União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica), Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e Conselho Superior do Agronegócio (Cosag-Fiesp).

Para os representantes do setor empresarial é importante participar do grupo de discussões para interagir com o governo e reivindicar maior espaço para as propostas oferecidas pela iniciativa privada. Os executivos de grandes empresas acham que o momento é oportuno para a afirmação do Brasil nesse círculo internacional de debates, ressaltando que essa participação poderá trazer resultados promissores para a economia interna. A coordenação do projeto foi confiada à Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), que pretende atrair outros conglomerados empresariais para o grupo de trabalho. “Estamos atentos ao tempo para não corrermos o risco de encontrar o governo com suas posições já firmadas”, revelou Walfredo Schindler, diretor da entidade.

Alguns setores não escondem a percepção de que as posições do Brasil nas conversações sobre mudanças climáticas são extremamente conservadoras. O professor Eduardo Viola, da Universidade de Brasília (UnB), revela que o mundo já está bastante adiantado na discussão sobre a necessidade de tratar o clima como tema central de preocupações, enquanto o Brasil ainda parece se contentar com o papel de espectador das decisões anunciadas por outros governos. Viola comentou também que está na hora do País assumir uma proposta mais construtiva que a cobrança das responsabilidades históricas das economias industrializadas. Diz ele que atualmente a União Europeia lidera o processo de discussão visando reduzir 20% das emissões até 2020. Os Estados Unidos admitem cortar 3% de sua carga poluente na atmosfera no mesmo período, e a China já começou a planejar a transição para um modelo produtivo menos prejudicial ao meio ambiente.

O engenheiro Roberto Schaeffer, da Coppe/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que tem realizado pesquisas sobre a utilização de energia atesta que a indústria brasileira tem potencial para cortar as emissões dos gases do efeito estufa, desde que haja incentivos públicos para fomentar as transformações exigidas. “É possível reduzir em 40% as emissões da indústria até 2030, mas a maior parte das ações dá menos retorno que os investimentos nas atividades-fim das empresas”, constata o engenheiro, lembrando que a alternativa é diminuir o período do retorno dos investimentos a fim de facilitar a obtenção de eficiência energética e a substituição de combustíveis, que são medidas positivas. Indispensável é discutir também os males do desmatamento que, no caso brasileiro é responsável por 60% das emissões, seguido pela pecuária com 25% e pela geração e uso de energia com 15%.

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