As imagens mostradas pela Rede Globo na noite de segunda-feira, durante a exibição do Jornal Nacional, chocaram o País. A população brasileira, que mais uma vez provou sua cordialidade e solidariedade ao doar milhões de roupas, brinquedos, alimentos e móveis para os afetados pelas enchentes em Santa Catarina, viu com tristeza pessoas – que tinham a incumbência de selecionar tudo e encaminhar para quem precisa – levando embora peças que lhe interessavam.
Primeiro, é a mulher que olha para um tênis “invocado”, como dizem os mais jovens. “Se não estiver soltando a sola, eu levo para meu filho”, disse ela. O incrível é pensar que, se estiver com a sola solta, poderia ser doado. Como se aqueles que passam necessidades fossem párias da sociedade, que receberiam apenas as migalhas que os “nobres” ofereceriam.
Mais tarde, foram os soldados. Guardiães da pátria, responsáveis pela nossa soberania, aqueles jovens separavam roupas doadas para as vítimas das chuvas. “O que você vai fazer com esse sutiã”, pergunta um deles. “Vou dar para a minha mãe”, responde o outro, para as gargalhadas dos companheiros.
As risadas dos soldados e a triste teoria da mulher que leva o tênis para o filho são as marcas tristes de nossa sociedade. Se temos a capacidade de receber bem os que vêm de longe, e principalmente de ajudar quem precisa (até com mais do que se pode dar), temos um irrefreável desejo de levar vantagem em tudo. A “Lei de Gérson”, que já completou três décadas, está mais atual do que nunca.
Não contemos nosso desejo de sair ganhando, nem mesmo quando as coisas que vemos são para necessitados. É a história – cruel – daquele cidadão que, ao invés de ajudar o deficiente visual que pede esmolas, tira os trocados de seu chapéu.
Saber que há gente com o despudor suficiente para esquecer a tragédia que abateu Santa Catarina e levar donativos para casa é assustador. Ver isto acontecendo, como vimos pela TV, com pessoas sem o menor escrúpulo, chega a dar vergonha de ser brasileiro.