Abraços e sorrisos

A semana começou com o cerco se apertando em torno do senador José Sarney (PMDB-AP), apanhado em grotesca contradição por ter negado quaisquer ingerências administrativas na fundação de leva seu nome, sediada no histórico Convento das Mercês, em São Luís do Maranhão, destinada à guarda de todos os documentos relativos ao período em que presidiu o País, da biblioteca pessoal, além de servir como futuro mausoléu.

Sarney jurou não desempenhar sequer um átimo de função administrativa na entidade, quando os jornais publicaram dados de um convênio assinado com a Petrobras, mediante o qual a empresa repassou R$ 1,3 milhão para um projeto que jamais foi executado. Aliás, o que se diz abertamente é que R$ 500 mil do total da verba oriunda da Petrobras foram desviados para contas bancárias de empresas fantasmas e da família Sarney. Mais uma vez aparecem nos jornais os famigerados fac-símiles de notas fiscais frias emitidas por empresas localizadas em falsos endereços, cobrando por serviços que não constam de sua especificidade e sequer foram prestados.

Poderia um homem tão culto e festejado nos meios elegantes como o senador José Sarney, membro da Academia Brasileira de Letras, explicar de modo proficiente como uma empresa dedicada ao comércio numa pequena cidade do entorno de São Luís, conseguiu ministrar um curso de capacitação em história da arte e outros aspectos da museologia, para servidores indicados pela fundação?

Diante da sistemática negativa de Sarney, que continua reclamando do injusto tratamento recebido nas últimas semanas, reiterando que a nação deveria ter mais respeito para com ele, os jornais estamparam no final da semana a evidência que pulveriza as lamúrias do derradeiro exemplar do nosso atraso político. A profilaxia em regra coube a O Estado de S. Paulo de domingo, ao exibir a sequência de fotos da solenidade de assinatura do convênio entre a Petrobras e a Fundação José Sarney, em dezembro de 2005, nas quais aparece em meio a abraços e sorrisos largos, o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli.

Examinado o material, senadores da oposição não titubearam em responsabilizar o presidente da Casa por quebra de decoro, ato caracterizado pelo falso testemunho dado alguns dias antes sobre estar isento de responsabilidades administrativas na respectiva fundação. Ora, se fosse verdade, que papel estaria representando o senador José Sarney, ao colocar seu jamegão em documentos na fotografada solenidade que se realizou há quatro anos na sede da Petrobras? “A mentira configura quebra de decoro. É coisa para perder o mandato”, sentenciou o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), indicado para integrar o Conselho de Ética do Senado.

O senador José Sarney viveu ontem, provavelmente, o dia mais atribulado das últimas semanas, desde a denúncia de que parentes seus haviam sido nomeados por meio de atos secretos para cargos comissionados em gabinetes de senadores íntimos. Apenas para lembrar os incautos, ato secreto foi o escuso expediente inventado pelo então diretor-geral Agaciel Maia, posto no cargo pelo próprio Sarney no primeiro mandato de presidente da instituição, com a finalidade precípua de revelar o que pensavam os sátrapas do Senado a respeito da súmula do Supremo Tribunal Federal (STF), proibindo o nepotismo.

A arapuca que Sarney acabou construindo para si e as perspectivas imediatas de sua carreira amesquinhada pela desmedida ambição hoje de domínio público, decerto foram motivo de candentes debates na segunda reunião ministerial ontem dirigida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reunião não foi marcada para discutir esse tema específico, mas foi impossível evitá-lo à vista do interesse de Lula em blindar o voluntarioso avalista. Em outro cenário, o encontro da oposição no Senado, o pensamento dominante foi a abertura de rigorosa investigação sobre a quebra do decoro parlamentar. A Casa de Rui foi invadida por um enxame de marimbondos de fogo.

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