Caiu como uma bomba a reportagem publicada pela revista colombiana Cambio, na edição distribuída às bancas na última quinta-feira, 31, dando conta do envolvimento de destacados integrantes do governo presidido por Luiz Inácio Lula da Silva com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que há mais de três décadas promovem ações de guerrilha nas selvas da região sudeste e nas planícies da base da Cordilheira dos Andes, com a finalidade de derrubar pela força das armas o governo constitucional.
A revista se baseou numa grande quantidade de e-mails encontrados no computador pessoal de Raul Reyes, porta-voz internacional da guerrilha, supostamente trocados com outros componentes do movimento insurgente. Como se sabe, Reyes foi morto por um comando de militares colombianos durante fulminante ataque desfechado contra um reduto localizado em território equatoriano, nas proximidades da fronteira com a Colômbia. À época, a ação foi rechaçada duramente pelos presidentes Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez (Venezuela), que ameaçaram romper as relações diplomáticas com o governo Álvaro Uribe.
Segundo a matéria, nos 85 e-mails trocados pelo importante dirigente das Farc, Raul Reyes, com supostos elementos da cadeia de comando da luta armada desenvolvida nas selvas da Colômbia e do Equador e, de acordo com informações não confirmadas com esporádicas incursões em território brasileiro, o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República, além de figuras importantes do Partido dos Trabalhadores (PT), são mencionados inúmeras vezes nas mensagens gravadas na memória do laptop apreendido no acampamento destruído pela aviação militar colombiana.
A reportagem, no entanto, assegurou que nenhum dos integrantes do governo brasileiro que aparecem na correspondência eletrônica datada de fevereiro de 1999 a fevereiro de 2008 (Reyes foi morto em março passado), tomou a iniciativa de responder aos supostos interlocutores. Dessa forma, o setor de inteligência do governo Uribe está convencido de que os nomes citados servem apenas como indícios de um hipotético comprometimento de altos servidores do governo Lula com as Farc. Contudo, a reportagem afirma que numa das mensagens assinadas por Reyes consta a referência a “cinco ministros, um procurador-geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro (secretário-geral de ministério), cinco deputados, um vereador e um desembargador brasileiros”. É provável que os autores do texto tenham escasso conhecimento da hierarquia funcional brasileira, pois curiosamente colocaram o desembargador no último lugar da relação.
O desembargador em questão seria Rui Portanova, da 8.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça, citado na correspondência como o admirador das Farc que teria demonstrado interesse em conhecer a rotina de um acampamento de guerrilheiros, custeando as despesas com recursos próprios. O mesmo guerrilheiro de codinome Medina que recebeu o recado de Portanova afirma ter mantido contatos com Marco Aurélio Garcia, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência da República, e Selvino Heck, assessor pessoal de Lula, ambos ligados ao PT. Também o nome da deputada federal petista Maria José Maninha aparece nas mensagens.
O Palácio do Planalto desmentiu prontamente quaisquer indícios de envolvimento de servidores do governo com as Farc, desqualificando as informações citadas na reportagem, negando também quaisquer vínculos do PT com a tentativa de derrubada de um governo democrático. De acordo com fontes oficiais, a revista fez uma seleção tendenciosa dos textos dos e-mails e acabou fornecendo aos leitores uma versão fantasiosa e sem consistência. Para todos os efeitos, uma enxaqueca a mais na dura vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.