A volta de Sarney

A eleição do novo presidente do Senado, a quem caberá a insigne tarefa de comandar o Congresso Nacional no biênio 2009-2010, acabou se transformando num arremedo de guerra entre pequenos e grandes sobas da política brasileira. O caminho foi desobstruído para a evolução triunfal do senador José Sarney (PMDB-AP), que depois de ter sido presidente da República e duas vezes presidente do Congresso, com um entusiasmo poucas vezes demonstrado em ocasiões anteriores partiu para a conquista, provavelmente já carimbada, do terceiro mandato na presidência do Poder Legislativo. Tudo ficou mais fácil para Sarney com a desistência do senador Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), cuja intenção de permanecer no cargo com o apoio unânime da bancada se aniquilou ao primeiro sopro.

O rides again de Sarney que, diga-se de passagem, tantas vezes repetiu de forma protocolar o manhoso cantochão de ter arquivado quaisquer pretensões relacionadas com o exercício do poder, passou a ser um tormento para o senador petista Tião Viana (AC), que em nome do equilíbrio das forças partidárias no Congresso, confiou na aparente harmonia política da base governista e se proclamou candidato à presidência do Senado, com a chancela do partido. A lógica da decisão se completava com a adesão da base e, essencialmente da bancada petista, à candidatura de Michel Temer (PMDB-SP), à presidência da Câmara dos Deputados.

Na tentativa de interpretar o momento desconfortável que vive, o senador Tião Viana se refere a uma luta clara e aberta de poder, concluindo que “há um grupo político que não imagina ficar à margem desse espaço de poder que o Legislativo representa”. Mesmo sendo difícil acreditar que ao PT interessa apenas e tão-somente conduzir-se no episódio com a intenção altruísta de manter o equilíbrio de forças no Congresso, o endereço das palavras do senador acriano é não outro, senão o donatário das maiores bancadas nas duas instâncias do Congresso. Tião acrescentou que “o presidente Lula já externou publicamente a preferência pelo meu nome”, mas, nas circunstâncias atuais, “diante de um contencioso em que o presidente Sarney é lançado por um grupo político, dirigido pelo senador Renan Calheiros, é natural que o presidente entenda a autonomia do Legislativo nessa hora”.

Como dizíamos, a guerra dos pequenos e grandes sobas da política tupiniquim poderá constituir um efeito retardado sobejamente conhecido nos redutos de nossa tradição cartorialista, espocando agora como uma típica vendeta contra o senador Tião Viana, que na qualidade de vice-presidente assumiu interinamente o comando da instituição no período de licenciamento de Renan, enredado por numa série de acusações de desvios da conduta moral exigida de um parlamentar. Uma das mágoas do político alagoano é que, no exercício da presidência, Viana nada fez para refrear o clima de animosidade manifestado pela maioria dos integrantes do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, culminando com a renúncia de Renan.

Referindo-se, portanto, ao grupo político que não pretende abrir mão do controle estratégico do Congresso, sobretudo, na fase de definição do candidato da aliança governista à Presidência da República, Viana desfere um petardo na direção do senador Renan Calheiros, que sempre agiu como fiel depositário das vontades do chefe supremo, José Sarney. E, na base das maquinações para conturbar a partilha harmônica do poder congressual, os observadores argutos poderão identificar a extrema resistência da vocação fisiológica da convivência entre o governo e o Legislativo, com vistas à manutenção das políticas de desenvolvimento regional recompensadas pela profusão de emendas orçamentárias.

Sarney disse pessoalmente a Lula que é candidato a presidente do Senado, ateando fogo no bivaque petista e, a provável retaliação poderá se materializar em votos contrários a Michel Temer na Câmara. O governo sabe disso, mas a essa altura não tem alternativa senão arriscar.

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