Clóvis César Lanaro
Quando a sociedade é complacente com a violência, ou é culpada ou perdeu a esperança.
Vendo o que ocorreu nos últimos dias em São Paulo, notório é que passamos por uma crise que vai além do que usamos chamar de segurança. Quando a violência chega ao ponto de não fazer escolhas de ataque, quer chamar a atenção para algo mais profundo. E mais profundo do que a perda de uma vida.
E a que a violência quer chamar a atenção? Além de mostrar poder, a violência indiretamente mostra a hipocrisia da sociedade. Como bem lembrou o atual governador do Estado de São Paulo, Cláudio Lembo, que a princípio pareceu lento, mas aproveitou a oportunidade para ser justo em suas palavras, quando dizia da hipocrisia no Brasil que só vê conseqüências e nunca está preocupado com as causas.
Uma das causas da hipocrisia manifesta está ligada intimamente às rebeliões ocorridas. Talvez seja ela a mais importante e que nos faz perder a esperança ou sermos culpados. Chama-se Justiça. Não entendamos como justiça com as próprias mãos, como justiça em sentido amplo do ser justo ou injusto. É sim, Justiça no sentido do poder conferido a alguns representantes da sociedade para que realizem o direito a que todos somos obrigados a cumprir e usufruir.
É esta Justiça que, em nossos tempos não pode ser aplicada literalmente e muito menos a favor do culpado. Sim e sempre em benefício da sociedade. Os anos trabalhados na Justiça trazem experiência, mas trazem também acomodação com o status quo, com as decisões já tomadas, com a política da boa vizinhança, com a aposentadoria que está por vir. Ousadia em favor da sociedade é o que mais precisamos: condenar corruptos (inúmeros nos últimos anos pós-ditadura), assassinos confessos (conceituados profissionais, mas culpados).
Quando a violência quer dar o seu recado ela quer dizer que a Justiça não está sendo aplicada no tempo certo (anos e anos para se tomar decisões), equanimemente (só pobres pendurados em grades dos presídios?) e esta Justiça não está fazendo sentido para organizar a sociedade. Para que Justiça se sua função de zelar pela organização das relações na sociedade não está nem de longe sendo cumprida?
Talvez a renovação seja a parte mais importante para organização da sociedade. Novos concursos para os profissionais da Justiça, reorganização administrativa destes órgãos, revitalização da obrigação destes órgãos que têm que se assumir como os principais participantes, que darão o rumo novo à nossa sociedade.
A Itália foi o grande exemplo de superação, de reorganização, de procura de renovação. Aquela operação iniciada e que até hoje gera frutos não surgiu dos outros dois poderes. Surgiu daqueles que tinham o poder de organizar, de melhorar a aplicação das leis, de limpar as mãos de todos os que de boa fé trabalhavam naquela sociedade.
Como renovar nossa Justiça é a questão que todos fazem. Desacomodar, tirar o traseiro das reuniões, tomar atitudes claras e talvez colocar gente mais jovem nos cargos de comando, porque energia e vontade fazem transformar esse país. E ser jovem é muito mais que contagem numérica de anos vividos. Ser jovem é acreditar que a Justiça ainda é o mote das atitudes dos indivíduos. Ela autoriza e condena os atos de nossa convivência em sociedade.
Nós não podemos ser complacentes com a violência, com a acomodação, com as injustiças. Nós não perdemos a esperança em termos uma sociedade em que se convive civilizadamente, em uma Justiça. A que tome a frente da renovação. O que nós somos é culpados pela situação que está aí, pela nossa pouca participação, pela nossa complacência diante da falta de Justiça presente em nossa sociedade.
Clóvis César Lanaro é administrador de empresas pós-graduado e graduando em Direito nas Faculdades Curitiba.