A verdade que incomodou

Hoje, como ontem e domingo, os russos choram a morte do escritor e intelectual Aleksandr Solzhenitsyn, um dos maiores personagens da Guerra Fria. Corajoso, ele foi responsável pela abertura das vísceras do regime socialista da então União Soviética. Portador de uma verdade que incomodou, o pesquisador foi perseguido, humilhado e deportado, mas o que dissera no início da década de 70 se mostrou real, crível e atual muitos anos mais tarde, quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas implodiu.

Arquipélago Gulag, de 1974, foi o livro que trouxe a glória e o martírio a Aleksandr Solzhenitsyn. Antes, fora o agitador político, a consciência crítica da União Soviética ainda com certos ventos liberalizantes. Mesmo assim, e mesmo após duas condecorações por mérito durante a II Guerra Mundial, ele foi mandado para um campo de trabalho na Sibéria por ter chamado o então comandante da Revolução Russa, Josef Stalin, de “bigodudo”. Imagine se realmente tivesse feito alguma crítica com argumentação.

Na Sibéria, Solzhenitsyn conheceu o lado negro do comunismo soviético. E passou a ter uma atitude contestatória. Lançou, em 1962, o romance Um dia na vida de Ivan Denisovich, em que abordava a situação dos que estavam presos. Sua obra, além de conter forte caráter político, era de ótima qualidade (coisa rara nos escritos políticos de hoje), e por isso ganhou o prêmio Nobel de Literatura de 1970.

Talvez por isso, e pelo alcance de suas críticas – e de suas verdades -, Solzhenitsyn passou a ser visado pelo Kremlin. O lançamento de Arquipélago Gulag, relato de mais de duzentas histórias do cárcere soviético, apresentando a real situação dos que viviam nos campos de concentração, foi a gota d’água para o então secretário geral do PCUS, Leonid Brejnev. Foi deportado, parou na Alemanha e logo foi dar aulas nos Estados Unidos.

Quando a verdade veio à tona, Aleksandr Solzhenitsyn pôde voltar ao seu país. Agora, com seu adeus, que fique a lembrança de seus relatos, para que se construa uma Rússia livre.

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