A TV digital e a Copa do Mundo

A idéia de trabalhar com imagens vem desde os primórdios da civilização, quando os homens começaram a desenhar nas cavernas para ilustrar e guardar o que era vivido. Chegamos até a fotografia e seguimos para o cinema, que deu vida e movimento às cenas estáticas. Por fim, nasce no século XX a televisão, que levaria as imagens para dentro de nossas casas. Neste ano, em plena Copa do Mundo, o Brasil se insere na era da televisão digital.

As emissoras de TV já utilizam o sistema digital para a produção e armazenamento de informações, no entanto, a transmissão e a recepção desses sinais pelos televisores brasileiros ainda permanece analógico. Com mudança de padrão, as imagens e sons serão digitalizados, possibilitando transmissão sem interferências, melhor qualidade de imagem e som, maior variedade de canais (até 150 podem ser recebidos), possibilidade de usar recursos interativos, como fazer compras em supermercados, acessar contas bancárias, escolher o ângulo de visão em partidas de futebol, acessar cenas de capítulos anteriores, etc. O aparelho de TV digital também pode ser utilizado para mandar e receber e-mails e acessar a internet.

No período de transição, as emissoras serão obrigadas por lei a transmitir em digital e analógico. Há duas possibilidades de assistir TV digital: comprar um novo aparelho de alta definição (HDTV), que diferentemente do SD (Standard Definition), além de disponibilizar a tela no formato 16×9, já está preparado para alta resolução de imagens e qualidade de som. Ou apenas aproveitar os demais recursos, sem preocupar-se tanto com a resolução de imagem, preservando seu aparelho de TV atual.

Ambos os tipos – analógico tradicional com tubo ou as inovadoras telas finas formato 16×9 – exigirão um decodificador para ser acoplado ao aparelho. Esse acessório (set-top box) terá a função de compatibilizar o padrão de transmissão (qualquer que seja escolhido) aos padrões do circuito receptor instalado nos aparelhos. Quando houver a definição do padrão a ser usado no Brasil, os aparelhos de TV brasileiros já sairão de fábrica com esse acessório embutido (se você tem mais de 30, lembra que um dia usamos sintonizadores VHF e UHF externos aos televisores – similarmente).

Após meses de discussão sobre o novo sistema – japonês (ISDB), europeu (DVB) ou americano (ATSC) – tudo indica que o presidente Lula anunciará o padrão oriental. O ISDB, cujo tempo de implantação total é de 10 anos, privilegia a alta definição e o maior equilíbrio entre as transmissões fixas e móveis.

Mas para desfrutar de todas as novidades, o brasileiro deverá prestar atenção nas especificações técnicas de cada produto para não se confundir na hora da compra da sua nova televisão: os aparelhos de plasma e LCD disponíveis no mercado hoje não são dotados de set-top box. Ao contrário do que muitos pensam, não é a TV digital, são apenas padrões de telas.

Embora pareçam iguais, o LCD não é plasma. A principal diferença entre as duas tecnologias está no quesito formação da imagem. Na tela de LCD (Liquid Cristal Display), para a formação da imagem há uma luz branca (backlight) e a luminosidade é filtrada pelos cristais líquidos presentes na tela.

A resolução da tela varia de 1024×768 a 1920×1080 pixels, associada a um baixo consumo de energia. A tela de LCD é mais usada atualmente para dispositivos pequenos, como displays de celulares, equipamentos de som para carros e monitores de computador (15, 17, 21 polegadas), além dos aparelhos de TV (23, 34, 42 polegadas). Seu custo ainda é proibitivo para tamanhos maiores, além de deixar rastros na tela perceptíveis quando há trocas muito rápidas das imagens.

As telas de plasma atingem dimensões maiores. Medem 37, 42, 50, 65 ou 71 polegadas (no mercado externo já foi apresentado exemplar de 103 polegadas) e a resolução de 852×480 a 1920×1080 pixels. Cada pixel da imagem do aparelho de plasma gera sua própria luz em virtude de estar preenchido por uma mistura de gases no estado de plasma. Seu custo teve uma redução acentuada nos últimos anos (um modelo de 42 polegadas, no ano de 2003, custava cerca de R$ 30.000, passando ao patamar de R$ 9.000 no início de 2006).

Estima-se que os aparelhos de LCD ou plasma tenham vida útil de 60 mil horas, cerca de 20 anos de uso (8 horas por dia).

Apesar de muito aguardada, a implantação da TV digital no Brasil ainda vai enfrentar problemas de ordem sociocultural: há cidades, principalmente nas regiões do Norte e Nordeste do País, que sequer possuem aparelhos no sistema tradicional, dificultando e comprometendo a penetração do novo padrão. Nessas localidades, pois, não há antenas nem para captação do sinal de telefonia celular, que dirá de um sistema de televisão tão inovador e avançado.

A grande jogada de marketing dos fabricantes de televisores com estas novas tecnologias será relacionada à Copa do Mundo. Como é de praxe, nesta época o brasileiro tende a adquirir novos equipamentos eletroeletrônicos, elevando consideravelmente as vendas do setor.

O mês de junho será o período-chave para conquistar novos consumidores de TV digital. Espera-se justamente nesta época, quando o Brasil pára para acompanhar a seleção brasileira, a veiculação das primeiras transmissões em high definition.

Para euforia dos amantes do futebol, resta-nos torcer que o sucesso da equipe canarinho, com a qualidade de seus jogos, seja compatível com o alto padrão das imagens transmitidas.

Eduardo Favaretto, criador do iBUSCAS – gestor de soluções para internet, é especialista em Tecnologia da Informação. Cursou física no Instituto de Física da USP e engenharia elétrica na UNESP (e-mail: linkfavaretto@linkportal.com.br)

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