A tristeza de Jade Barbosa

Olhar para a ginasta brasileira Jade Barbosa é sentir um travo no peito. Uma de nossas atletas mais talentosas e vencedoras, Jade não consegue fugir de uma tristeza que incomoda. O rosto de menina não esboça um sorriso, a não ser na obrigatoriedade de um aceno oficial para os árbitros no início de cada apresentação (no solo, na trave, no salto ou nas barras assimétricas). Depois, é só aquela cara de desalento que nos comove e nos preocupa. O que há com Jade?

A vida de uma ginasta é uma vida de provações. Desde criança são horas intermináveis de preparação, um excesso de disciplina que limita a infância e uma exigência por resultados desde sempre que mina a criança e “amadurece” à força, mesmo quando ainda não se pode amadurecer. Sonhos são transformados em pó em um salto, uma pirueta – e um tombo. Isto poderia explicar o olhar tristonho de Jade. Mas não pode ser só isso.

No Brasil, vencer no esporte dito amador (todos menos o futebol e a Fórmula 1) é difícil. Na realidade é quase impossível. Contam-se nos dedos aqueles que conseguiram sucesso na vida e nas quadras ou pistas. O preparo intelectual, psicológico e familiar é mais que nunca importante, para que as dificuldades do cotidiano não afetem a preparação de uma esportista de alto rendimento. Jade sente, claramente, qualquer fato que envolva ela ou suas amigas da ginástica. E isso é mais um fato que justifica as lágrimas que teimam em escorrer no rosto dela. Mas não pode ser só isso.

Quando chegam as Olimpíadas, atletas que vivem quase na marginalidade viram heróis prontos para a consagração da medalha de ouro. Imprensa e torcida esperam muito de quem mal conhecem, e acham que elas têm que ter reações como as dos jogadores de futebol. Não é assim. E isto prejudica o trabalho dos esportistas, que acabam falhando, como Jade falhou. Aí vêm as lágrimas.

O sofrimento delas é do tamanho da nossa expectativa. O fracasso, para elas, aparece num segundo, e não pode ser corrigido – só daqui a quatro anos. Jade Barbosa, uma criança, aprendeu isso cedo. E chora pela alegria que talvez não consiga ter.

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