Ivan Schmidt

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Contam que a renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961, há 44 anos, se deveu em grande medida à insuportável solidão que o mesmo sentia ao contemplar o vazio do Planalto Central, e ao percorrer ao longo das noites indormidas os desertos aposentos da residência oficial.

Isolado pela aliança partidária que o elegeu, a velha e reacionária União Democrática Nacional (UDN) à frente do comboio que reunia ainda o Partido Democrata Cristão (PDC) e o Partido Trabalhista Nacional (PTN), além de outros, o próprio Jânio não tinha paciência para cultivar a vida partidária, compondo um ministério com pouquíssimo espaço para as legendas que o apoiaram.

Pretendendo realizar um governo acima das conveniências políticas agrupadas em sua campanha, o presidente passou a sofrer o desgaste que lhe foi imposto pela insatisfação gerada no âmago do udenismo, afinal, força mais expressiva de quantas participaram da coligação vitoriosa. O principal líder da UDN era o governador Carlos Lacerda, da então cidade-estado da Guanabara, condoreiro e oráculo do pensamento conservador herdado do brigadeiro Eduardo Gomes, um dos nomes mais ilustres desse grupo político.

Lacerda havia sido guindado à cena política brasileira desde o governo constitucional de Getúlio Vargas, como um de seus críticos mais exacerbados. Contra sua pessoa foi armada a frustrada tentativa de assassinato na Rua Toneleros, cujo morto foi o tenente da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, em 1954. Deputado federal e dono da Tribuna da Imprensa, Lacerda foi a verruma que abriu o rombo no governo Vargas ao ensejar a implantação do IPM que passou à história sob a designação de República do Galeão, tendo em vista a sanha com que os oficiais da referida arma o conduziram até o suicídio do presidente. Mas essa é outra história.

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A linha tangencial imaginária entre os governos Jânio e Lula deve ser traçada a partir do frágil arcabouço partidário erigido para sustentar a base congressual. Enfim, sem votos favoráveis na Câmara e no Senado nenhum presidente consegue governar. Para Jânio não era esse o motivo da insônia. Sua base virou pó porque a UDN, comandada pelo furibundo governador da Guanabara, retirou o apoio. Deu no que deu.

No caso atual, aceita a premissa de soldar a aliança de sustentação, tarefa atribuída ao comissário José Dirceu, logrou-se a adesão do PTB, PP e PL, na verdade, refúgio preferido pelos oportunistas do chamado baixo clero, não por acaso sempre suscetíveis aos afagos governamentais. Um vestígio claro da inconseqüência da unidade forjada para fazer andar o projeto de governo, viu-se no constrangimento dos partidos socialistas (PPS e PSB), a princípio engajados na faina, todavia forçados a desembarcar dessa nau de insensatos, pela péssima companhia de alguns passageiros.

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Não se pode desconsiderar, avaliada a ganga impura garimpada pela CPI dos Correios, a participação ativa de parte dos componentes da base aliada na apologia do intercurso que acabou gerando o aleijão nutrido pelo plasma das contas bancárias de Marcos Valério, de resto, um fascinante mercador de vantagens políticas e pecuniárias, com habilidade de sobra para adestrar pessoas de idéias tão antagônicas quanto Caim e Abel.

Resta esclarecer alguns pormenores da concepção propriamente dita da vertente do mensalão. Sabe-se que Marcos Valério foi apresentado a Delúbio Soares pelo conterrâneo Virgílio Guimarães. A peça que falta para completar o quebra-cabeça é saber quem é o autor da sugestão do pagamento de propinas, com base na arrecadação de fundos pela via de contratos publicitários com estatais e empresas dispostas a agradar o governo, ou empréstimos bancários com aval do publicitário. A esposa amorosa declarou à CPI que o ex-ministro José Dirceu foi cientificado previamente do arranjo financeiro. Essa é a injunção que os componentes da CPI tentam descobrir.

Depois das primeiras denúncias do deputado Roberto Jefferson sobre o mensalão pago a deputados do PP e PL, a consistência dos fatos apurados pela CPI botou o governo Lula de pernas para o ar. A reforma ministerial emasculada pela eleição de Severino Cavalcanti à presidência da Câmara transformou-se em autêntico parto da montanha, inviabilizando a possibilidade de Lula convocar auxiliares que aportassem ao governo, além da credibilidade arranhada pela leniência administrativa, ganhos comprovados de inteligência, decisão e descortino. O pior dos males é a paralisação do projeto de nação, o atoleiro no qual afunda o putativo leque das intenções lulistas, ora subvertido por uma discurseira de manjado conteúdo messianista.

A nação exige mais. O presidente ainda desfruta do acato da maioria da população, que o reelegeria para o segundo mandato. É confortável o percentual que vê em Lula o político mais honesto do País, mas esse é um patrimônio a ser ampliado por uma visão de Estado. A outra face da moeda é rigorosamente aflitiva.

Ivan Schmidt é jornalista.