A resistência das palavras

Uma das principais descobertas da psicologia moderna é que a massa pode ser condicionada pelo tipo de linguagem empregada em situações específicas. Estímulos direcionados ao ponto certo podem agir como instrumentos de dominação sobre homens e animais.

As relações dos homens com o mundo exterior e os semelhantes, explicam os psicólogos, podem ser dominadas mediante a simbologia da linguagem. O homem aprende a pensar por meio das palavras e das imagens verbais que armazena na experiência diária, e são esses os valores que vão interagir na elaboração do processo que condiciona a gradual percepção pessoal da vida e do mundo.

O psicólogo russo Dobrogaev, logo depois da Segunda Guerra Mundial, afirmou que ?a linguagem é o meio de adaptação do homem ao seu ambiente?, e tal condição é imposta pela necessidade que o homem tem de comunicar-se com os semelhantes e, ainda, pelo significado desse processo nas relações com o mundo exterior. Em outras palavras, pode-se avaliar melhor a essência desse pensamento, mediante a constatação simplista: quem consegue ditar e formular as palavras e frases que usamos no dia-a-dia, enfim, quem domina os meios de comunicação, ?é o senhor do espírito?.

Segundo Joost Merloo, médico holandês que se dedicou ao estudo dos métodos de lavagem cerebral utilizados durante e após a guerra, opiniões pré-fabricadas podem ser distribuídas repetidamente pela mídia, ?até que atinjam a célula nervosa e implantem no cérebro um padrão rígido de pensamento?. Baseado na teoria desenvolvida por Pavlov, Merloo acrescentou que ?a opinião pública dirigida é o resultado de uma boa técnica de propaganda, sendo as eleições nada mais do que a verificação do efeito, temporariamente bem sucedido, da manipulação pavloviana do espírito. Todavia, as eleições podem exprimir somente o que o povo finge pensar ou crer, por ser perigoso manifestar-se de outra forma?.

A fórmula do condicionamento político das massas é simples e consiste na repetição mecânica de temas e sugestões que, a seu tempo, acabam reduzindo o impacto e as oportunidades para divulgar a dissensão. Assim trabalham as atuais máquinas de propaganda e marketing político, substitutas das antigas agências de relações públicas então existentes, que no fundo faziam a mesma coisa.

Merloo lembrou, no livro Lavagem cerebral – Menticídio, o rapto do espírito (Ibrasa, SP, 1980), que os nazistas abusaram do poder condicionante da palavra reproduzida ao infinito para que ninguém ficasse escusado de ouvir a mensagem. O meio mais conhecido da época era o rádio, e o simples ato de desligar o aparelho atraía a suspeita dos agentes da Gestapo. A propósito, nunca é demais continuar tirando lições da arrogante fórmula de Goebbels, o arquiteto da propaganda hitlerista, para quem a mentira repetida à saciedade tornava-se verdade incontestável.

O poeta e ensaísta russo refugiado nos Estados Unidos, Joseph Brodsky, analisando um contexto que conheceu na intimidade, escreveu que pessoas não se transformam em tiranos porque têm vocação para tanto, e nem por mero acaso: ?O veículo da tirania é um partido político (ou a hierarquia militar, que tem uma estrutura semelhante à do partido), porque para se chegar ao topo de alguma coisa é preciso encontrar algo que tenha uma topografia vertical?. A citação é do livro Menos que um (Cia. das Letras, SP, 1994), cuja leitura é altamente recomendável.

O que leva alguém ao topo é a lenta passagem do tempo, diz Brodsky, e isso nos soa com certa familiaridade. ?Mesmo nas fileiras da oposição, o progresso no partido é lento; quanto ao partido no poder, não tem nenhuma razão para apressar-se, e ao cabo de meio século de domínio ele próprio passa a ser capaz de distribuir o tempo.?

Brodsky sempre foi um temerário dissidente do marxismo-leninismo, tanto que em 1972 foi forçado a deixar São Petersburgo (Leningrado), onde nascera em 1940, para refugiar-se nos Estados Unidos.

Suas palavras, porém, reafirmam onde quer que sejam lidas e quais forem os leitores, o indelével sinete da rebeldia incapaz de remover as montanhas da tirania, é verdade, mas forte o suficiente para ajudar a forja de homens e mulheres que não se dobram ao autoritarismo.

Ivan Schmidt é jornalista.

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