Gaudêncio Torquato
Sob os gritos entusiasmados das arquibancadas, o jogador corre para as laterais enquanto companheiros pulam sobre suas costas. Para fechar a comemoração do gol, o jogador mostra a camiseta com os dizeres: ?Deus é fiel?. O jogador é um atleta de Cristo. O signo invade estádios, busca aplausos em casas de música, com os pagodeiros de Jesus, toma assento no Congresso Nacional, onde 62 deputados e 4 senadores formam a Frente Parlamentar Evangélica. São os políticos de Cristo. Não se trata de mania, dessas que costumam aparecer nas estações do ano, mas um fenômeno – o evangelismo ou, como alguns exageradamente chamam, a talibanização religiosa – que começa a formar um exótico caldo no caldeirão político do País. As igrejas evangélicas, sob a bandeira da liberdade religiosa (artigo 5.º incisos VI, VII e VIII), decidiram penetrar nos meandros da política, usando, para tanto, estrutura composta por gigantesca rede de templos, sistemas de jornais, TV e rádio, um treinado grupo de pastores e uma base eleitoral estimada em 18 milhões de eleitores. A questão é: pode a religião servir de trampolim para a política?
Vale lembrar, inicialmente, a separação entre Estado e Igreja, no Brasil, que data de 1889, quando o imperador deixou de mandar no clero e de se amparar no ?beneplácito?, pelo qual detinha o poder de aceitar ou não determinações do papa. Proibia-se confundir a missão da Igreja com as coisas do Estado. Hoje, essa vedação abriga-se no artigo 19 da Constituição Federal, que proíbe ao Estado manter relações de dependência ou aliança com cultos, igrejas e seus representantes. Vedação que, de forma sutil, é contornada por algumas seitas. A estratégia comporta, primeiro, uma representação política.
Sob essa moldura, desenvolveu-se, no ciclo inicial, o movimento dos evangélicos. Hoje, o sonho é mais ambicioso, pois abriga a eleição de um presidente da República, de governadores de Estado e a expansão contínua das bancadas parlamentares. Não se pode tirar o direito de nenhum cidadão brasileiro, religioso ou não, detentor de direitos políticos, de pleitear cargo público. Questionam-se outras coisas, como a substituição da moral pública pela moral religiosa, situação que ocorre quando o Estado subvenciona, de alguma forma, os cultos, ou, em outros termos, quando a estrutura do Estado é usada em benefício de qualquer igreja, seja ela católica ou pentecostal. Candidatos abençoados por igrejas são apresentados aos fiéis em cultos. Ora, entidades religiosas têm direito à imunidade tributária sobre os templos (artigo 150, inciso VI) ou sobre qualquer patrimônio, conforme entende o STF. Significa que o benefício lhes concedido não pode ser desviado para favorecer os fulanos da política.
Outro componente que junta política e religião é a mídia. Nessa área, emerge a Igreja Universal do Reino de Deus, a IURD, comandada pelo bispo Edir Macedo, presente em mais de 80 países, e cuja cúpula é ligada à TV Record e à Rede Mulher. A Universal pisa fundo no terreno político. Controla o Partido Republicano Brasileiro (PRB), que acolhe o vice-presidente da República, José Alencar, e um senador, Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Macedo, candidato ao governo do Rio de Janeiro, e uma bancada com mais de 20 parlamentares. Sob esses dois eixos – comunicação e partido político – desenvolve um projeto de poder às custas do Estado. Vejamos. O Estado detém o monopólio da concessão de mídia eletrônica para exploração privada. No caso de igrejas ou prepostos, quando ganham uma concessão, é de supor que evitem usá-la para misturar religião, política e negócios. Sob o aspecto ético, é condenável o desvio de finalidade. Certos meios de comunicação se prestam a projetos pessoais de políticos. Infere-se que a concessão do Estado passa a ser usada como usufruto de pessoas. A Igreja Católica, cuja banda esquerdizante já cometeu o pecadilho de se inserir na seara política, inclusive ajudando a fundar o PT, também tem redes de comunicação, mais amadoras, sendo mais discreta no apoio político.
Os desvios da comunicação controlada por igrejas evangélicas ou os espaços de TV comprados chamam a atenção pela maneira cavilosa como misturam alhos com bugalhos, sob um fundo místico-religioso que não resiste ao crivo ético. Basta ver, nas madrugadas, irmãos atormentados desfilando suas vidas na telinha, contando casos escabrosos e experiências com o diabo. Purgar publicamente pecados e exorcizar demônios por meio de uma liturgia espetacularizada são performances que puxam audiência – que empurram fiéis aos cultos – que descarregam dízimos – que constroem mais templos – que abrigam mais políticos – que servem de escudo ao evangelismo com cheiro de feira – que expandem o controle sobre a mídia.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.