A cada dia, embora ainda seja imensa a parcela de cidadãos sem acesso a quaisquer tipos de informação, ajudada pelo súbito deslocamento da ponta do tapete sobre o qual se escondiam patranhas de integrantes do poder e, por óbvio, dos indispensáveis mentores localizados nas altas esferas financeiras, a sociedade brasileira vai conhecendo o retrato ampliado das mazelas que hoje infestam a cadeia de comando da chamada res publica.

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Desde a denúncia do funcionamento do valerioduto, feita pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que abastecia com propinas mensais (daí o superlativo “mensalão” e sua célere notoriedade em todo o País), inúmeros parlamentares do arco partidário de apoio ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é bastante reduzido o número de pessoas que ainda têm capacidade de se impressionar com as revelações sobre o nível de organização e influência dos corruptores, e a cupidez com que os corrompidos se deixam encandear pelo dinheiro fácil.

Sem a menor dúvida uma das revelações mais chocantes dos últimos tempos, uma desagradável ferida exposta de forma explícita pelos desdobramentos da Operação Satiagraha, da Polícia Federal (PF), foi saber que até o ex-deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) foi seduzido pelo charme irresistível do banqueiro Daniel Valente Dantas, a quem passou a vender os serviços de lobista durante as negociações que resultaram na recente aquisição da Brasil Telecom pela Oi.

Não é difícil concluir que Greenhalgh, um advogado paulistano que engrandeceu sua carreira ao defender com o furibundo ardor dos intocáveis muitíssimos presos políticos durante os anos de chumbo, conquistando vários mandatos na Câmara dos Deputados, acabou cedendo ao assédio de Dantas e passou a ter lugar de destaque na legião de consultores jurídicos recrutada pelo multimilionário, em face da amizade com o presidente Lula e do trânsito livre entre seus assessores diretos no Palácio do Planalto.

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Na seqüência das investigações da Operação Satiagraha, o delegado Protógenes Queiroz curiosamente afastado da chefia da mesma logo depois da prisão de Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta, suspeitou que Greenhalgh e o publicitário Guilherme Sodré pressionaram os congressistas no sentido de induzir a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a modificar o Plano Geral de Outorgas (PGO), relevante marco jurídico do setor, com o objetivo de permitir que a mesma operadora controlasse mais de uma das áreas da telefonia fixa definidas pela privatização deflagrada nos anos 90s.

A compra da Brasil Telecom pela Oi, que não seria possível sem a revogação da norma estipulada pelo PGO, acabou gerando uma supertele e envolveu a cifra de R$ 13 bilhões. Segundo a crença dos delegados que trabalharam na Satiagraha, Daniel Dantas assumiu resolutamente a tarefa de remover obstáculos que dificultavam a negociação de olho na polpuda comissão, mesmo que para obter seu intento tivesse que contratar os serviços especializados de pessoas influentes no governo.

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Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça ensejaram a gravação duma conversa amigável entre Greenhalgh e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República, cujo fulcro foi a suposta movimentação de agentes da Polícia Federal em torno de funcionários de Daniel Dantas. Dessa conversa brotou a impagável apreciação de Greenhalgh sobre Protógenes, a quem diagnosticou como “meio descontrolado”, na mais conspícua percepção de que, se alguém não emitisse ordens contrárias com urgência, fogo e enxofre seriam ruidosamente vertidos sobre personalidades de proa das finanças nacionais.

Diante de evidências tão graves apontadas pela investigação da PF, o governo continua fingindo que voa em céu de brigadeiro. Nada afeta a aparente tranqüilidade dos habitantes da Ilha da Fantasia.