Ao lado da histórica Catedral da Candelária, na confluência das Avenidas Rio Branco e Getúlio Vargas, no edifício Ultramarino, ficava a sede da Petrobras, no Rio de Janeiro, desde a sua criação em 1954. A sede atual na Avenida Chile foi construída e inaugurada na década de 70. A marca de empresa pública constituída por uma composição acionária com investidores estatais e privados estruturou a realidade produtiva que se estende aos dias de hoje. A relativa autonomia em diferentes governos é um dos fatores geradores do indiscutível êxito da empresa. Até meados da década de 60, os seus veículos tinham o emplacamento de bem particular. Eram as chamadas placas amarelas. E o ingresso nos seus quadros profissionais, em todos os níveis, sempre foi pela meritocracia do concurso e não por nomeação de apaniguados. Ser competente era exigência fundamental para integrar o seu quadro funcional. Aí reside um dos referenciais da sua vida produtiva vitoriosa.
O advogado Roberto Toledo foi por décadas a memória viva da história do petróleo brasileiro. Aposentou-se próximo dos 80 anos. Foi assessor jurídico de todos os presidentes da Petrobras ao longo dos anos 50s, 60s, 70s, 80s e 90s. Essa longevidade era fruto da competência jurídica e conhecimento técnico e histórico da estrutura organizacional da empresa. Em um Brasil conflagrado por conflitos políticos e ideológicos, a sabedoria e consciência de Toledo só tinham olhos para a defesa intransigente dos interesses da Petrobras. Um exemplo de servidor público e republicano.
O episódio que narrarei é exemplo disso. Ao final da primeira semana de abril de 1964, com o afastamento da presidência do marechal Osvino Ferreira Alves e da sua diretoria, por ordem das forças militares vitoriosas, Roberto Toledo foi guindado à condição de administrador-geral informal. Era uma situação caótica. As cassações e perseguições com prisões se multiplicavam nas diversas unidades da empresa, em diferentes estados. No Rio, na administração central, importantes servidores de nível gerencial eram afastados pelos ?dedos-duros? de plantão.
Nesse cenário surrealista, o bravo Toledo recebe uma comitiva de militares graduados, tendo à frente o general Olímpio Mourão Filho, que havia iniciado, a partir de Juiz de Fora, a marcha vitoriosa que culminaria na deposição do governo João Goulart. A comunicação era direta: ?Por determinação do general Arthur da Costa e Silva, ministro da Guerra (era essa designação à época) Mourão Filho deveria ser empossado como novo presidente da Petrobras?. Era uma ordem revolucionária.
Experiente e conhecedor da legislação interna da empresa, o advogado Toledo comunica ao general que a posse não poderia se efetivar naquele instante. Seria necessária a convocação por edital da assembléia-geral para que o processo de posse se tornasse legal. O general Mourão Filho acatou o argumento e ficou no aguardo da publicação que lhe daria legitimidade no cargo.
Dias depois, o Congresso Nacional ratificou a indicação do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República. Um dos seus primeiros atos foi vetar o nome de Mourão Filho para a Petrobras. Escolheu o marechal Ademar de Queiroz para a direção da estatal. A sua administração foi um marco positivo e consolidador da autonomia gerencial, imprimindo um forte sentido nacionalista. Enfrentou e derrotou a tese do ministro Roberto Campos, do Planejamento, que desejava dividir a Petrobras em várias unidades autônomas. Ademar de Queiroz, que hoje é o nome do edifício-sede no Rio, foi, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pela existência no presente dessa realidade que orgulha os brasileiros conscientes. E o mais importante: não permitiu que os vitoriosos ?revolucionários? aparelhassem a sua estrutura com a nomeação de incompetentes para o gerenciamento da empresa.
Gestos e atitudes como as do estimado Roberto Toledo e do marechal Ademar de Queiroz deveriam ser uma referência de integridade e decência para os atuais dirigentes da Petrobras. Faria um bem enorme para o Brasil.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.