O fato é que da década de 80 para cá, os países que fizeram a opção de desenvolvimento, rejeitando a cartilha mágica da fórmula única e salvacionista de um pensamento econômico conservador, estão dando certo. Optaram, com competência e criatividade, por opções que contemplaram alternativas ortodoxas e heterodoxas. Países relativamente pobres, a exemplo da Coréia do Sul, Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, a partir da década dos 70, implantaram projetos de desenvolvimento exitosos e integrados na economia globalizada. As duas grandes ?baleias? asiáticas – Índia e China – fizeram o mesmo. Os chineses se anteciparam ao fracasso do modelo coletivista burocrático comunista apostando em um sistema dual objetivando a modernização. A Índia, uma economia semi-estatizada, adotou modelo próprio.
No fundamento dessas opções está uma definição clara de buscar o capital para construir o desenvolvimento. O investimento externo capitalista foi adotado com vigor. Quando o economista Luiz Gonzaga Beluzzo faz a afirmação oportuna que é a epígrafe desse texto, sobre a incapacidade da modernização brasileira nas últimas décadas, o faz com enorme autoridade. Professor de economia da Unicamp, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, na gestão de Dílson Funaro. Beluzzo é um dos mais articulados pensadores da economia brasileira. Daí saber que, gostando-se ou não, as últimas grandes opções pelo desenvolvimento sustentado foram realizadas nas décadas de 40 e 50, respectivamente por Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.
Recentemente, em Brasília, foi realizado o 3.º Congresso Internacional Brasil Competitivo, onde se constatou o atraso nacional. Em relação aos competidores na faixa dos países em desenvolvimento, os nossos avanços econômicos só são expressivos quando comparados com o nosso atraso. Enquanto aqueles países sobem de elevador para o 20.º andar do edifício do desenvolvimento, o Brasil prefere subir pelas escadas.
Numa síntese perfeita dessa realidade, o diretor-presidente do Movimento Brasil Competitivo, Fernando Matos, constatou que nos falta uma visão de longo prazo para colocar o País na opção do desenvolvimento sustentado. Didaticamente, formatou a ?zoologia das economias?, onde enquadrou os seguintes planos de vôo em relação ao desenvolvimento: perus, galinhas, gansos, águias e beija-flores.
1. As economias peru. São países que morrem na véspera, não geram o ambiente institucional que facilite o surgimento de empresas. São os países africanos e alguns da América Latina como Peru, Bolívia, Paraguai e outros da América Central.
2. As economias ganso. São pesadas, levantam vôo com esforço, mas ganham altura e rumo. Os exemplos são a China e a Coréia do Sul.
3. As economias águia. São sólidas, voam alto e com visão de médio e longo prazo. Verdadeiras potências econômicas. Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra integram o grupo.
4. As economias beija-flor. São dotadas de agilidade e altamente especializadas em bicar a produção em que podem ser melhores do que os competidores diretos. Suécia, Noruega, Dinamarca integram o fechado clube.
5. As economias galinha. Batem asas mas, à falta de um plano de vôo para o desenvolvimento, quase não saem do lugar. O crescimento vegetativo que obtêm só é expressivo quando comparado com elas mesmas. A infra-estrutura básica está em formação. Dentre outros, o Brasil é o exemplo mais completo.
O original trabalho de Fernando Matos foi publicado na edição n.º 42 da revista Primeira Leitura, onde o editor André Soliani destaca: ?Nos últimos 20 anos, a democracia brasileira se consolidou, os indicadores sociais melhoraram, as exportações triplicaram, empresas nacionais atingiram níveis de competitividade internacional e a educação básica, apesar da baixa qualidade, se tornou virtualmente universal?. Onde está então o gargalo que impede o desenvolvimento sustentável?
Está no fato de o Brasil, nas últimas duas décadas, não ter tido um planejado projeto de desenvolvimento. Nos idos das décadas de 40 até 70, o País cresceu a uma taxa média entre 7% e 8%. Para ficar nos últimos 10 anos, no governo Fernando Henrique a taxa média foi de 2,3% ao ano. Nos últimos três anos do governo Lula a média anual é de 2,7%. Aí está a raiz do desenvolvimento estagnado da economia brasileira na contemporaneidade. O que fazer? Vencer a incapacidade, o preconceito e inserir o Brasil na economia internacional fundamentado em um sólido projeto modernizante.
Hélio Duque é ex-deputado federal.