A natureza da coerência

Pessoas que conseguem pensar por si mesmas, ou seja, pouco influenciadas pelo senso comum, especialmente nas camadas médias da sociedade, diante das reações idiossincráticas do governador Requião, tudo que não conseguem fazer é ficar alheias.

Na concepção dos paranaenses, avaliada de modo empírico, pois nenhum instituto resolveu aferir com critérios metodológicos esse dado, a avaliação do governador vai de um extremo a outro – do amor ao ódio – e mesmo os que preferem manter-se em posição neutra, o contingente do ?nem sim nem não, antes pelo contrário?, também manifesta uma opinião necessariamente computada porque é parte do cenário.

Diz-se do político que em sua natureza há espaço reduzido para a coerência. Nesse quesito, porém, Requião está entre as raras exceções. Coerência não lhe falta e a constatação vem do comparativo entre o discurso comportamental no primeiro governo e no Senado e as atitudes tomadas no mandato atual.

Ao assumir o governo, Requião deparou-se com uma estrutura que não mais contava com o Banestado, não controlava a Sanepar e a Ferroeste, além do até agora inexpugnável cordão jurídico tecido em torno das empresas beneficiadas com a sesmaria da cobrança de pedágio em rodovias construídas com recursos públicos.

Por um triz o Estado não vendeu também a Copel, vítima do mau agouro e do desprestígio a ela devotados pelo ex-governador Jaime Lerner, cuja insuperável sapiência mercadológica concebera a falácia da perda de competitividade da estatal e sua inexorável anulação pela concorrência. Além da resistência estóica da frente organizada para obstar a alienação da empresa, houve o recrudescimento duma crise sazonal do setor elétrico mundial e o cancelamento do leilão por falta de interessados.

O quadro atual mostra a Copel firme na vanguarda sempre ocupada na geração e distribuição de energia elétrica e outros insumos, sem ter perdido uma faísca de sua competitividade e importância estratégica na consolidação do desenvolvimento do Paraná, além da garantia do enfrentamento dos futuros desafios do campo energético.

Volto ao ocupante do Palácio Iguaçu sob pena de palmilhar uma vereda fascinante, mas prejudicial ao raciocínio pretendido. Acompanhei de perto a primeira passagem de Requião pelo governo e sempre vi um defensor intimorato das potencialidades do Estado e sua gente, em primeiro lugar dos cidadãos que mais careciam da presença do governo.

A maioria dos projetos subordinou-se ao escopo de atender pequenos e médios produtores rurais ou urbanos, com crédito, isenção de impostos e demais benefícios embutidos nas chamadas políticas compensatórias. Por exemplo, Requião estimulou a agricultura familiar ao permitir ao produtor pagar sua dívida com o equivalente em produto colhido.

Como recebera de Alvaro Dias um extraordinário acervo de obras rodoviárias, hospitais, postos de saúde, escolas e creches, Requião lançou-se à construção da Ferroeste com o apoio do Exército. A rigor, foi a maior obra do governo que, entretanto, desencadeou vasto programa de atendimentos localizados, priorizando habitações populares, saneamento, eletrificação rural e até o ensaio de uma política indigenista autóctone, entre outras iniciativas.

Na verdade, os obstáculos que o governador ora enfrenta foram todos prenunciados na primeira gestão, quando mandou sustar a operação conjunta do Banestado e do Bamerindus numa rentabilíssima carteira de seguros. Daí nasceu a divergência com o ex-senador e ministro José Eduardo Vieira, controlador do banco depois vendido ao HSBC em circunstâncias jamais esclarecidas à opinião pública.

Pois a coerência de Requião levou-o a penitenciar-se diante de Vieira em discurso no Senado, convencido das cavilações de FHC para tirar o banco de seus legítimos proprietários. Talvez a forma mais explícita de selar o armistício tenha sido o convite ao ex-banqueiro para falar aos participantes da escola de governo na última terça.

Os moinhos atacados pelo governador, definido por um professor da Universidade Federal de Minas Gerais em momento anotado por esse repórter ?como o último quadro gramsciano da política brasileira?, são Itaú, pedágio, transgênicos, trilhos da Ferroeste e um surto bilioso contra certa imprensa distinguida com o troféu rotativo Severino Cavalcanti.

Nenhum outro governador tem contencioso tão vasto numa agenda que não dispensa estratégicas alfinetadas em Lula e no PT e afagos no presidente Hugo Chávez, o impagável estadista bolivariano.

Ivan Schmidt é jornalista.

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