A filósofa Hannah Arendt, que tem discípulos ilustres no Brasil, tornou-se conhecida da comunidade acadêmica pela formulação da tese logo absorvida pelo corpus da ciência política, ?a banalidade do mal?. O proveitoso livro de Nádia Souki, Hannah Arendt e a banalidade do mal, publicado pela Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2006, leva o leitor a ponderar sobre a questão importante do mal radical considerado no interior de uma abordagem política. A tese tem tudo a ver com manifestações vistas hoje em dia, quando mentes ignóbeis ensopadas pelo mesmo sêmen que gerou aleijões como a Okrana, polícia secreta dos czares, matriz dos Protocolos dos sábios de Sião, numa elegia a Macunaíma pariu simulacros como sacolas de dinheiro abandonadas, uso adulterado de documentos e provas forjadas, revivendo com a pieguice dos brutos a Carta Brandi ou as cadernetas de Prestes, quando não apelando para a violência física.
Nádia nos informa que o mal aparece como perversão inerente à problemática da realização e da totalização, apropriando-se do conceito kantiano ao frisar que ?para se pensar o surgimento de fenômenos históricos inteiramente novos que revelaram formas inéditas de violência política, é necessário questionar acerca do mal e do homem, precisamente em sua faculdade de criar regras para si mesmo?.
Para Hannah, reiterou a autora, ?o mal radical, que apareceu no totalitarismo, transcende os limites do que foi definido por Kant como o mal radical, pois trata-se de ?uma nova espécie do agir humano?, uma forma de violência que ?vai além dos limites da própria solidariedade do pecado humano?, de ?um mal absoluto porque não pode ser atribuído a motivos humanamente compreensíveis??. Nádia acrescenta que o fenômeno totalitário revelou que ?não existem limites às deformações da natureza humana e que a organização burocrática de massas, baseada no terror e nas ideologias, criou novas formas de governo e dominação, cuja perversidade não se pode medir?.
O fenômeno totalitário contraria todas as normas de bom senso que alguém pode conhecer, originando-se o mal radical num sistema onde todos os homens se tornaram ?supérfluos? ou meios para atingir determinado fim. E essa superfluidade atingiu tanto os que foram manipulados quanto os manipuladores, provoca Nádia, ao advertir que ?essa nova modalidade de mal radical aparecerá toda vez que o homem for transformado em supérfluo e este risco pode muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários?.
Hannah ensinou que o totalitarismo se apoiava em dois pilares: ideologia e terror. ?Enquanto a ilegalidade é a essência do governo tirânico, o terror é a própria essência do domínio totalitário?, completou a catedrática de filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, ampliando a visão de que o primeiro traço da dominação totalitária ?é a destruição das redes de comunicação que prendem o homem a um tecido sociopolítico, a fim de promover a mobilização das massas despolitizadas?. A malignidade de que trata a filósofa foi assim retratada: ?O volume de pessoas, a apatia e o mutismo político são suficientes para definir essas massas, vindas da atomização social consecutiva à Primeira Guerra Mundial, ao desemprego e à inflação, os quais esmagaram todas as distinções, aplainando, assim, o caminho do totalitarismo?.
Pode-se afirmar que a propaganda totalitária é a outra face do terror e evidencia uma das principais características das massas modernas: ?Elas não acreditam em nada visível, nem na realidade de sua própria existência, não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam fatos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte. A propaganda totalitária cria um mundo fictício capaz de competir com o mundo real, cuja principal desvantagem é não ser lógico, coerente e organizado?.
O grande perigo a que se expõe o homem moderno é a perda da capacidade de distinguir a verdade da falsidade, a realidade da ficção, ou seja, abolir a capacidade de ?sentir em comum e pensar por si mesmo?. Sem acesso à realidade, os sentidos das pessoas passam à manipulação dos déspotas, e isso significa a morte da consciência.
Ivan Schmidt é jornalista.